Deep Techs e Startups

Startups de base científica: por que entender as deep techs pode mudar o jogo da inovação no Brasil

26/agosto/2025

Imagine um café que, além de dar energia, nutre seu corpo com minerais e vitaminas. Ou uma tecnologia capaz de detectar contaminação em produtos lácteos antes que ela se espalhe. Ou ainda uma forma de transformar o lixo agrícola em objetos úteis no dia a dia. Todas essas soluções surgiram em laboratórios, foram desenvolvidas com base científica e chegaram ao mercado com potencial de impacto real. Isso é deep tech: startups baseadas em conhecimento avançado, que transformam pesquisa em inovações de alto valor para a sociedade.

Essas empresas não seguem o “padrão startup” que conhecemos: MVP ágil, pitch afiado e rodada de investimento rápida. Elas operam em uma lógica diferente, mais complexa, mais longa e mais transformadora.

O que muda entre startups tradicionais e deep techs?


A diferença não está apenas na origem científica da tecnologia, mas em como o valor é construído ao longo do tempo. Startups digitais costumam partir de demandas de mercado claras, construir produtos em ciclos curtos e medir sucesso por métricas como aquisição de usuários ou receita. Já as deep techs encaram um outro cenário: o MVP pode ser um protótipo em escala laboratorial, com necessidade de validações científicas, certificações regulatórias e testes em ambientes controlados.

“O ciclo de desenvolvimento é mais longo porque o risco é mais técnico do que mercadológico e isso exige um modelo de negócio que integre a ciência à estratégia desde o início.”Jéssica Carvalho, especialista em deep tech da Wylinka.

Além disso, deep techs costumam atuar em nichos industriais, mercados regulados ou com soluções altamente especializadas, como: saúde, energia, biotecnologia e novos materiais. Isso traz desafios em comercialização, construção de parcerias e definição de mercado, que não se resolvem com as mesmas ferramentas aplicadas a startups digitais.

Complexidade não é lentidão. É profundidade.

Pode parecer que esse caminho mais longo seja um sinal de lentidão. Mas chamar uma deep tech de “startup lenta” é como criticar uma árvore centenária por não crescer em um mês. Cada tipo de empreendimento tem seu tempo de maturação, e com as deep techs não é diferente. Comparar com startups digitais pode distorcer completamente a realidade.

Quando falamos de tecnologias como terapia gênica, captura de carbono ou reciclagem molecular de resíduos tóxicos, estamos lidando com marcos científicos. São soluções que exigem tempo, mas também oferecem retornos robustos e duradouros.

Exemplos brasileiros não faltam:
BioLinker: pioneira na produção de proteínas recombinantes, a BioLinker desenvolve soluções terapêuticas avançadas para a área da saúde, com aplicações em medicamentos, vacinas e equipamentos hospitalares.

CarbonAir Energy: especializada em captura de CO₂, a CarbonAir Energy desenvolve dispositivos que removem dióxido de carbono diretamente do ar, transformando-o em produtos de valor agregado.

Regenera: focada em biomodelagem e impressão 3D para aplicações na saúde, a Regenera desenvolve biomodelos anatômicos e próteses personalizadas, utilizando tecnologias de impressão 3D para apoiar o planejamento cirúrgico, a reabilitação e a educação médica.

Essas soluções demandam tempo para pesquisa, desenvolvimento e validação, mas oferecem retornos robustos e duradouros. São tecnologias com potencial para transformar cadeias produtivas, impactar positivamente o meio ambiente e gerar soberania tecnológica. Ou seja, não são lentas, são profundas.

Capital paciente: por que é essencial (e onde a filantropia entra)


Capital paciente é aquele que aceita ciclos mais longos de maturidade e retorno. Em teoria, é um modelo de investimento que valoriza impacto, conhecimento e inovação em longo prazo, mesmo que os retornos financeiros não sejam imediatos.

Dados da ANBIMA, indicam que o retorno sobre investimentos em deep techs pode demorar entre 25% e 40% mais do que em startups tradicionais. Ainda assim, apresentam taxas internas de retorno (IRR) superiores, chegando a 26%, frente aos 21% de startups digitais. Isso só é possível com apoios estruturados, desde a fase de pesquisa até a comercialização.

Filantropias estratégicas são aliadas importantes nesse contexto. Instituições como o Instituto Serrapilheira têm apoiado projetos científicos com potencial de aplicação real, assumindo riscos iniciais e ajudando a preparar tecnologias para entrarem no radar de investidores privados.

Blended finance é o nome dado à combinação de recursos públicos, privados e filantrópicos, um modelo que já destacamos por aqui e que tem se mostrado essencial para viabilizar o desenvolvimento das deep techs no Brasil. Essa abordagem equilibra diferentes expectativas de retorno e risco, sendo especialmente estratégica nas fases iniciais do desenvolvimento tecnológico.

Aliás, no YouTube da Wylinka tem um episódio exclusivo do nosso podcast dedicado a esse tema: como financiar a ciência com capital paciente e blended finance. Vale muito a pena conferir!

Modelos tradicionais não são incompatíveis. Mas precisam ser adaptados.


O ciclo clássico de investimento (semente, série A, B…) funciona bem em startups digitais. No universo das deep techs, ele não é incompatível, mas é insuficiente.

O risco é duplo: técnico e mercadológico. Por isso, é preciso adaptar o modelo tradicional para considerar as especificidades das deep techs como prazos de regulação, transferência de tecnologia e tempo de validação. Se essas etapas forem ignoradas, a chance de subestimar o potencial (e as necessidades) dessas startups é grande.

Embora o Brasil esteja entre os 15 maiores produtores de conhecimento científico do mundo (segundo dados da UNESCO), menos de 5% desse conhecimento vira inovação (Fonte: Confap). São vários os motivos: falta de estrutura de transferência de tecnologia, cultura empreendedora ainda em formação, excesso de burocracia, políticas públicas incipientes e dificuldades de conexão entre universidades e o setor produtivo.


Um novo modelo de articulação

Deep techs não se constroem sozinhas. Elas exigem um ecossistema maduro, capaz de atuar de forma articulada e estratégica. Isso passa por:

  • Universidades que promovem empreendedorismo científico com ambientes menos burocráticos e estruturas de apoio mais ágeis;
  • Governo como agente estruturante, com políticas públicas específicas, fomento adequado e mecanismos de compartilhamento de risco;
  • Capital privado disposto a investir em soluções com alto impacto e tempo de maturação mais longo.
    Capital misto, que combina recursos públicos, privados e filantrópicos, potencializando a capacidade de investimento e reduzindo riscos para projetos de longo prazo.

Nos EUA, muitas deep techs se beneficiam fortemente de contratos governamentais em setores como defesa, energia e saúde, que juntos representam bilhões em investimentos anuais. Programas como o SBIR (Small Business Innovation Research) destinam recursos significativos para o desenvolvimento tecnológico com impacto estratégico.

No Brasil, entretanto, ainda falta uma estratégia nacional robusta voltada às deep techs, o que limita o crescimento desse segmento. Segundo o relatório “Deep Techs Brasil 2024” da Emerge Brasil, existem cerca de 875 deep techs ativas no país, um número ainda pequeno se comparado às mais de 20 mil startups em operação no ecossistema brasileiro.

Apesar da quantidade modesta, essas empresas representam um imenso potencial para inovação de impacto e desenvolvimento econômico, especialmente em áreas como bioeconomia, inteligência artificial e energias renováveis. O relatório da Emerge mostra que o crescimento anual dessas deep techs tem sido superior à média geral de startups, evidenciando um movimento crescente que demanda políticas públicas e investimentos dedicados.

O papel da Wylinka e o Movimento Deep Tech

A Wylinka atua justamente nesse ponto de convergência. Como organização que transforma ciência em impacto, acreditamos que não basta apenas fomentar tecnologias promissoras: é preciso construir as condições para que elas se tornem negócios sustentáveis.

Com o Movimento Deep Tech, estamos articulando lideranças, influenciando políticas públicas e conectando universidades, empreendedores, investidores e agências de fomento em torno de um objetivo comum: criar um Brasil onde as inovações científicas gerem valor real para a sociedade.

Nossa assinatura do Protocolo de Intenções das Deep Techs, juntos com outros signatários influentes do ecossistema: FINEP, Sebrae, BNDES, ABDE e muitos outros, mostram esse compromisso na prática. Estamos ajudando a tornar visível o que ainda é invisível e a construir pontes duradouras entre conhecimento, capital e impacto.

Quer entender mais sobre como apoiar e estruturar deep techs no Brasil?

Se você acredita no poder transformador da ciência e da tecnologia para gerar valor real e duradouro para a sociedade, junte-se a nós nessa jornada. O futuro do país depende da nossa capacidade de impulsionar startups de base científica que enfrentam desafios complexos, criam soluções inovadoras e promovem desenvolvimento sustentável.

Acompanhe nossos canais e faça parte do Movimento Deep Tech: no YouTube, temos entrevistas e podcasts que desvendam o universo do capital paciente, da inovação e das políticas públicas; no Spotify, conteúdos exclusivos para quem quer ir além e entender a conexão entre ciência, filantropia e impacto; e nas redes sociais, você acompanha nossos bastidores, programas de aceleração e capacitação e nosso impacto real nas deep techs brasileiras.

Esse é um chamado para quem quer transformar conhecimento em impacto concreto, para quem quer investir no amanhã e fortalecer um ecossistema que pode revolucionar setores estratégicos do Brasil. A hora é agora, juntos, podemos construir uma nação mais inovadora, resiliente e justa.
Venha com a gente. Estamos fazendo acontecer!

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