Cases Wylinka

Como a Realixo criou um negócio enfrentando um dos maiores problemas estruturais do Brasil: o lixo

26/janeiro/2026

O Brasil produz anualmente mais de 81 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos, segundo dados da Abrelpe. Desse total, cerca de 50% é composto por resíduos orgânicos, majoritariamente restos de alimentos e resíduos biodegradáveis. Ainda assim, a maior parte desse material segue diretamente para aterros sanitários ou lixões, prática que contribui significativamente para a crise climática. Resíduos orgânicos em decomposição geram metano, um gás com potencial de aquecimento global aproximadamente 28 vezes maior do que o CO₂.

Foi diante desse cenário que nasceu a Realixo.

Não como resposta a uma tendência de mercado, mas como consequência direta da inquietação de um empreendedor que passou a enxergar o lixo como um sintoma de um sistema econômico mal desenhado.

Como tudo começou

Andrea Lehner, fundador da Realixo não veio de um laboratório; sua formação e experiência vieram de economia, gestão e do campo. Ele já havia criado empresas, aberto um restaurante em Viena e aprendido na prática a realidade dura do mercado. Esse histórico deu-lhe duas ferramentas que marcaram a criação da Realixo: senso de oportunidade e tolerância ao risco.

O estalo veio quando Andrea começou a mapear os fluxos de resíduo no Brasil e percebeu uma contradição óbvia: um país com grande vocação agrícola e biodiversidade convivia com práticas que enterravam metade do seu próprio potencial. Em números: o Brasil gera dezenas de milhões de toneladas de resíduos por ano, os levantamentos mais usados citam entre 76 e 82 milhões de toneladas coletadas/geradas dependendo da fonte e do recorte, e cerca de metade desse total é resíduo orgânico (restos de comida, feiras, etc.). Esse cenário evidencia o desafio dos resíduos orgânicos no Brasil.

O economista por formação, transformou o incômodo em hipótese: e se fosse possível criar um serviço que recolhesse, tratasse e vendesse o produto final, o adubo, de forma padronizada, segura e escalável?

Para testar o interesse de mercado, em 2021 ele lançou uma landing page simples. Chegaram dezenas de manifestações de interesse antes mesmo de uma operação sequer existir. O sinal foi forte o bastante para ele investir economias pessoais que estavam reservadas para um imóvel na operação.

“Em vez de comprar um apartamento, investi tudo para criar a Realixo”, disse Andrea em entrevista; a decisão foi, nas palavras dele, um ponto de virada.

A aposta

Convertendo a hipótese em solução tecnológica que impacta a sociedade, a Realixo fez uma escolha estratégica: não vender apenas a ideia de compostagem, mas um serviço completo, desde a logística de coleta até o controle de processo e a entrega do adubo final. Era uma aposta dupla: operacional (a logística e padronização) e simbólica (mudar percepção: lixo como recurso). A proposta se conecta diretamente ao problema dos resíduos orgânicos no Brasil. Para isso precisaram construir protocolos baseados em ciência, adaptar legislações estaduais e referenciar boas práticas internacionais, um trabalho de engenharia de processo, e não apenas de comunicação.

Os números ajudam a entender por que a aposta era (e se concretizou) relevante. O Brasil ainda recicla muito pouco: índices publicados mostram taxas de reciclagem muito baixas (em torno de 4% para a reciclagem em geral), o que ajuda a explicar o espaço de mercado para soluções de economia circular. Além disso, resíduos orgânicos bem gerenciados reduzem emissões: o metano gerado na decomposição anaeróbia tem um poder de aquecimento considerável, estudos e órgãos como a EPA e o IPCC apontam que o metano é dezenas de vezes mais potente que o CO₂ em horizontes de 20–100 anos, e desviar esses fluxos reduz emissões. Enfrentar os resíduos orgânicos no Brasil é, portanto, também uma estratégia climática.

No front comercial, a aposta foi testada e validada: em poucos anos a Realixo já acumulava mais de 600 clientes recorrentes, entre residências, condomínios e empresas, e passou a converter toneladas de orgânicos em adubo circulante.

Os bastidores

O “como” dessa transformação é o que distingue o projeto de startup. Não se tratava de compostagem caseira; tratava-se de criar processos que funcionassem em escala, sem odor, sem vetores e com controle de qualidade. Isso exigiu três frentes simultâneas: ciência aplicada (benchmarking com pesquisas acadêmicas, como as da UFSC), adequação legal (parâmetros sanitários e ambientais) e engenharia operacional (rotas de coleta, pré-processamento, cura do composto, embalagem/distribuição).

A virada: AptaHub Conecta e o salto de visão

Escalar um serviço técnico exige mercado, e mercado se constrói com rede. A entrada da Realixo no programa AptaHub Conecta, iniciativa do AptaHub com parceiros como co- executores, como a própria Wylinka, que conecta startups ao agro e aos principais atores de inovação, marcou o ponto de virada da empresa. Para Andrea, foi ali que o escopo do negócio mudou de patamar: 

“As rodadas de negócio nos colocaram em conversas que não teríamos sozinhos. Passamos a enxergar nossa solução como parte de uma cadeia muito maior”, explicou.

Na prática, o programa ajudou a Realixo a amadurecer a comunicação B2B, a entender o timing e as expectativas de potenciais compradores institucionais e a negociar parcerias com atores que podem levar o adubo a cadeias produtivas maiores (hortas urbanas, cooperativas, viveiros e empresas de paisagismo). Foi menos um “curso qualificação” e mais um reposicionamento estratégico: de prestadora local para parceira de cadeia. Esse reposicionamento aumentou a probabilidade de atração de investimento e permitiu planos de expansão mais ancorados em contratos e parcerias.

O impacto que nasce dos resíduos orgânicos no Brasil.

A história da Realixo é, no fundo, sobre escolha. A escolha de olhar para um problema estrutural do Brasil não como obstáculo, mas como terreno fértil para inovação. O lixo, que historicamente simbolizou descarte e invisibilidade, passa a ganhar outro significado quando inserido em uma lógica de cadeia produtiva, regeneração ambiental e valor econômico mensurável.

Ao transformar resíduos orgânicos em insumo agrícola, a Realixo não apenas reduz emissões e evita desperdício, mas também reinsere matéria-prima no ciclo produtivo, conectando o urbano ao campo, o consumo à regeneração e o impacto ambiental à viabilidade econômica. Trata-se de uma proposta que ultrapassa a solução pontual e se organiza como infraestrutura ambiental em construção, , especialmente relevante diante do volume de resíduos orgânicos no Brasil.

O programa AptaHub Conecta e a atuação da Wylinka entram nesse momento como peças-chave desse processo de maturação. Mais do que acesso a contatos, trouxeram leitura de mercado, reposicionamento estratégico e a ampliação de horizonte necessária para que a Realixo se enxergasse como parte de uma rede maior, conectada ao agro, à bioeconomia e às cadeias produtivas que sustentam o país. Foi nesse ambiente que a startup consolidou um novo patamar de ambição e estrutura, ancorando seus planos de crescimento em relações institucionais, contratos B2B e parcerias de longo prazo.

O resultado é uma empresa que cresce sustentada por dados, processos e mercado. Uma operação que se expande sem perder o vínculo com seu propósito original, enquanto constrói um caminho concreto para escalar impacto ambiental positivo em um país que ainda enterra valor todos os dias.

A Realixo demonstra que enfrentar o problema do lixo no Brasil exige mais do que boa intenção. Exige leitura sistêmica, rigor técnico, capacidade de execução e visão de cadeia. E é exatamente nesse ponto de interseção entre ciência, operação e estratégia que a empresa constrói seu futuro.

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