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Políticas públicas climáticas e ecossistemas de inovação: interdependência importa

01/julho/2026

Como políticas climáticas efetivas usam a lógica de ecossistemas para transformar incentivos. Noruega, Costa Rica e Marrocos dão aulas, e o Brasil pode aprender.

Há muitos anos, nossa pauta aqui na Wylinka é a relevância da ótica de ecossistemas para o desenho de políticas públicas e, em especial, de políticas climáticas. Agora, com os debates sobre desafios climáticos cada vez mais em alta, acreditamos que essa ótica se torna cada vez mais urgente. Para explicar melhor nosso ponto, e mantendo o nosso hábito de trazer papers e boas práticas escondidos por aí, o texto de hoje vai trazer um argumento recente muito legal sobre ecossistemas de inovação e mudança climática. Além dele, vamos trazer também três exemplos de países que dão uma super aula de combate às mudanças climáticas com estratégias baseadas em ecossistemas. Sem mais delongas.

O que a academia nos diz: realinhamento de ecossistemas de inovação e a transição climática

Um ponto de partida instigante vem de Falcke, Zobel e Comello (2024), publicado no Journal of Product Innovation Management (JPIM). O estudo investigou, ao longo de quatro anos, como incumbentes e novos entrantes se reorganizam em ecossistemas de inovação para coletivamente enfrentar a mudança climática, o que os autores chamam de ecosystem realignment.

A tese central é muito legal, mas também incômoda: a transição climática não é uma história de disrupção pura, em que startups substituem grandes incumbentes. Por outro lado, também não é aquele papo de transformação interna das grandes empresas. Na verdade, o que eles encontram é uma história de realinhamento, incumbentes e novos entrantes experimentando novas interfaces tecnológicas e relações estratégicas em torno de inovações climáticas. O estudo se concentra na indústria elétrica e identifica três grandes padrões desse processo.

Plataforma digital liderada pelo incumbente

O primeiro padrão: grandes utilities digitalizam sua infraestrutura e abrem uma plataforma para complementadores de software de terceiros, que passam a oferecer soluções de gestão de energia. O resultado é um ganho significativo de eficiência no uso de recursos: enquanto figuras como startups trazem velocidade e novas apostas tecnológicas, a escalabilidade vem da capacidade do incumbente de atrair parceiros externos.

Realinhamento na tríade incumbente–complementador–cliente

Aqui, complementadores de hardware, frequentemente startups, oferecem dispositivos que permitem ao consumidor final interagir com a infraestrutura digitalizada, tornando a rede mais flexível e resiliente. A inovação climática acontece na fronteira entre o incumbente, o complementador e o usuário final.

Novo orquestrador como agente disruptivo

O padrão mais disruptivo: uma startup cria uma plataforma digital que conecta diretamente os usuários, assumindo o papel de coordenadora do ecossistema e relegando os incumbentes ao papel de complementadores.

O que esses três padrões têm em comum? Todos requerem colaboração ativa entre atores com histórias, culturas e incentivos muito diferentes. E todos enfrentam um obstáculo central: a resistência estratégica dos incumbentes, que frequentemente percebem o realinhamento como ameaça antes de percebê-lo como oportunidade. A conclusão dos autores é direta: enquanto muitos ainda acham que o impacto climático via ecossistemas de inovação vai vir pelo protagonismo da tecnologia, percebe-se que o core da questão é a arquitetura institucional e os incentivos ligados aos incumbentes.

É exatamente aí que a política pública entra em cena. Governos que entendem essa dinâmica não apenas financiam projetos isolados: eles constroem as condições de possibilidade para o realinhamento acontecer. E é isso que temos tentado cada vez mais resolver em uma posição mais à Think Tank entre governos, startups e grandes empresas: acelerar o alinhamento de atores por uma série de alavancas, como blended finance, programas de apoio a startups, fortalecimento de atores da ciência e muito mais.

Três políticas climáticas que funcionam: Noruega, Costa Rica e Marrocos

Noruega: incentivos progressivos e a consolidação do ecossistema de mobilidade elétrica

A trajetória norueguesa com veículos elétricos é frequentemente tratada como anomalia, um país rico que pode se dar ao luxo de subsidiar carros. Mas essa leitura erra o ponto central. O que a Noruega fez foi construir, ao longo de décadas, um conjunto coerente de incentivos que criou as condições para um ecossistema inteiro se reorganizar.

Desde os anos 1990, o país foi acumulando isenções progressivas: isenção do imposto de compra (baseado em peso, CO₂ e NOx para combustão), isenção de IVA de 25%, acesso a faixas exclusivas de ônibus, estacionamento gratuito e tarifas reduzidas em transporte por barcos. O resultado alavancou não só a venda de carros elétricos, mas também desbloqueou a criação de um mercado em que fabricantes, instaladores de infraestrutura de recarga, gestores de energia e consumidores todos passaram a operar em um novo ecossistema de mobilidade elétrica. Em novembro de 2025, mais de 97% dos carros novos emplacados no país eram elétricos, praticamente a meta de 100% que o Parlamento havia estabelecido para 2025.

A outra dimensão importante é o timing da saída. Ao constatar que a meta foi atingida, o governo norueguês anunciou a retirada gradual das isenções de IVA, com plena extinção prevista para 2027, ao mesmo tempo em que aumenta os impostos sobre veículos a combustão. Os incentivos não foram permanentes, mas foram suficientemente estáveis para que o ecossistema amadurecesse. Isso contrasta com países que oscilaram nos subsídios prematuramente, esfriando a demanda antes que a infraestrutura e a oferta de produtos se consolidassem. Essa é a beleza da política norueguesa: o fundo soberano (hoje na casa de US$ 1,7 trilhão, alimentado pelas receitas do petróleo) criando um colchão fiscal necessário para que esses incentivos se sustentassem ao longo de décadas sem comprometer outras prioridades de gasto público.

Costa Rica: precificando serviços ambientais com o FONAFIFO

Em 1996, a Costa Rica atualizou sua lei florestal e criou um dos programas de pagamento por serviços ambientais (PSA) mais inovadores do mundo, gerido pelo FONAFIFO, o Fundo Nacional de Financiamento Florestal. O mecanismo é, na essência, uma resposta direta ao clássico desafio de florestas produzindo serviços vitais (sequestro de carbono, proteção de bacias hidrográficas, biodiversidade, beleza cênica) pelos quais o mercado não pagava nada.

O FONAFIFO passou a pagar diretamente aos proprietários de terras privadas para conservar e restaurar florestas, cobrindo os quatro impactos positivos acima. O financiamento vem principalmente de um percentual da arrecadação de impostos sobre combustíveis fósseis, criando uma simetria muito bacana: quem polui financia quem conserva. Com isso, desde sua criação, o programa acumulou mais de US$ 565 milhões em pagamentos e protegeu mais de 1,15 milhão de hectares de floresta. Vamos repetir porque o mantra é muito bom: quem polui financia quem conserva.

Além disso, o FONAFIFO não atua como um simples fundo de transferência. Ele intermedia créditos de serviços ambientais entre os proprietários de terra e os compradores, que incluem desde doadores internacionais até produtores privados de hidroeletricidade que dependem da qualidade das bacias. Isso criou um ecossistema de serviços muito poderoso, com regras, contratos e incentivos claros para diferentes atores. O desafio agora é o que chamam de comportamento autofagocitante da política de redirecionamento: à medida que a própria Costa Rica avança na descarbonização, a arrecadação do imposto sobre combustíveis (que financia o FONAFIFO) tende a cair. Problema bom, mas ainda assim desafiador!

Marrocos: o Estado como orquestrador de ecossistema global de investimento em energia renovável

O complexo solar Noor Ouarzazate representa um movimento de política industrial de grande ambição. O Marrocos importava cerca de 90% de sua energia, um nível de dependência energética que tornava qualquer choque de preços nos combustíveis fósseis um risco sistêmico. Para reduzir esse problema, a aposta do governo marroquino foi em uma arquitetura institucional capaz de atrair um ecossistema global de capital e tecnologia.

A criação da MASEN (Agência Marroquina de Energia Sustentável) foi o primeiro movimento: uma entidade pública com mandato claro, autonomia para negociar contratos e credibilidade suficiente para ser contraparte de grandes financiadores internacionais. Com isso, o Noor Ouarzazate I (160 MW de CSP com tecnologia de calha parabólica) foi viabilizado por uma combinação que inclui o Fundo de Tecnologia Limpa (US$ 435 milhões), o Banco Mundial, o Banco Africano de Desenvolvimento, o Banco Europeu de Investimentos, o banco alemão KfW e a Agence Française de Développement, totalizando mais de US$ 3,9 bilhões em financiamento externo. O projeto todo, nas suas fases I, II e III, chegou a 580 MW, um dos maiores complexos de CSP do mundo.

A MASEN funcionou como orquestrador, no vocabulário de Falcke et al., o papel onde o Estado torna-se ator-chave para o realinhamento de ecossistemas. Além disso, a garantia tarifária firmada com a ONEE (concessionária elétrica nacional), a um preço fixo de 1,62 MAD/kWh, deu previsibilidade suficiente para que investidores privados entrassem num projeto de risco tecnológico e de mercado ainda considerável. O resultado foi uma transição de país com 90% de dependência de importação de energia para líder africano em energia renovável, com meta de 52% de capacidade renovável até 2030.

Política pública como arquitetura de ecossistema: o que o Brasil pode aprender

O que une esses três exemplos, e o que o paper de Falcke et al. nos ajuda a entender nos fundamentos teóricos, é que as políticas climáticas mais efetivas não tratam inovação como um insumo que se compra ou um resultado que se regula. Elas tratam inovação como um processo relacional, que depende de quais atores estão na mesa, com quais incentivos, por quanto tempo e com quais interfaces entre eles.

Noruega criou consistência temporal e progressividade. Costa Rica precificou o que era invisível e criou um mercado onde havia apenas assimetria entre deterioração e não pagamento. Marrocos montou o ecossistema institucional necessário para atrair capital que o país sozinho não teria. Em todos os casos, o Estado, na forma de suas agências e políticas inovadoras, foi um grande arquiteto do ecossistema para que a inovação climática escalasse.

Na Wylinka, trabalhamos com governos que querem sair do papel de reguladores reativos para se tornarem construtores de ecossistemas. Se você quer aprofundar como esses aprendizados se traduzem para o contexto brasileiro, seja em mobilidade, florestas, energia ou outros setores críticos, não deixe de nos procurar. Temos atuado intensamente nessa agenda por meio do projeto Mobiliza e de outras frentes de capacitação e consultoria para gestores públicos. Entre em contato com nossa equipe (contato@wylinka.org.br) e nos acompanhe no LinkedIn e Instagram.

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