Políticas de Inovação

As Prioridades por Trás da Nova Política de Inovação Brasileira

09/setembro/2026

Que pergunta um país está respondendo quando decide, hoje, o que vai financiar amanhã?

Imagine uma mesa de jogo de pôquer em que ninguém mostra a mão, mas todo mundo consegue ver onde o adversário está empilhando as fichas. É mais ou menos assim que funciona a corrida global por inovação: cada país senta à mesa e, ao decidir onde vai apostar seus recursos, revela, no que acredita que vale a pena investir para as próximas décadas. O Brasil está, agora mesmo, no meio de uma dessas rodadas. A nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, que vai valer até 2034, está sendo desenhada neste momento, e o processo por trás dela já é, sozinho, uma pista de como o jogo está sendo jogado por aqui.

Foto meramente ilustrativa.

Ninguém aposta em tudo ao mesmo tempo

Todo governo, quase sempre, tem mais problema para resolver do que dinheiro para investir. Por isso, decidir onde investir é sempre, também, decidir onde não investir. Quando o Estado coloca fichas em um setor, tira fichas de outro, e essa escolha carrega uma aposta sobre o que vai importar lá na frente.

Dá para ver esse processo com clareza na construção da nova ENCTI (2024-2034), a estratégia que organiza toda a política de ciência e tecnologia do país. Antes de virar documento final, ela passou por mais de 270 rodadas de conversa por todo o Brasil, reunindo 13 mil pessoas presencialmente e 100 mil pela internet, até chegar a uma grande conferência nacional em Brasília com 521 recomendações. Desse processo enorme saíram quatro grandes apostas: 

  • reconstruir a base de universidades e institutos de pesquisa do país;
  • reindustrializar com tecnologia nova;
  • usar ciência para projetos estratégicos como espaço, energia nuclear e defesa; 
  • usar a ciência para resolver problemas sociais.

Quatro apostas, entre centenas de ideias discutidas. O que não virou aposta também diz muito sobre o que o país decidiu deixar para depois.

As fichas que o Brasil já colocou na mesa

O orçamento é a prova real de uma aposta, e o Brasil já colocou suas fichas em cima da mesa. A Nova Indústria Brasil (NIB), a política industrial lançada em 2024, separou R$ 300 bilhões para financiar seis frentes até 2026: agroindústria, saúde, cidades mais verdes, transformação digital, energia limpa e defesa nacional. Até junho de 2025, R$ 205 bilhões já tinham sido aprovados, 80% da meta inteira do ciclo. É dinheiro que já saiu do papel.

Dentro dela, a fatia dedicada só à inovação já soma R$ 108 bilhões contratados, dos quais R$ 60 bilhões já foram efetivamente pagos. No mesmo tabuleiro, o fundo que financia ciência e tecnologia no país, o FNDCT, bateu recorde histórico em 2025 com R$ 14,6 bilhões, e tem planejamento para chegar a R$ 96 bilhões até 2029.

O interessante é que três documentos diferentes, escritos por equipes diferentes, em momentos diferentes, repetem as mesmas palavras: bioeconomia, soberania tecnológica, reindustrialização, transformação digital.

As mesas ao redor do mundo

O Brasil não é o único jogador fazendo esse tipo de cálculo, é a regra do jogo para qualquer país que leve inovação a sério. O Índice Global de Inovação 2025, da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, coloca no topo do ranking mundial Suíça, Suécia, Estados Unidos, Coreia do Sul e Singapura. A China entrou pela primeira vez no top 10, depois de anos apostando pesado em pesquisa, exportação de tecnologia e patentes.

Uma forma simples de enxergar o tamanho dessa aposta é olhar quanto cada país investe em pesquisa e desenvolvimento como fatia da própria economia. Israel investe 6,35% de tudo o que produz, a Coreia do Sul 4,96%, os Estados Unidos 3,45%, a Alemanha 3,11%, a China 2,58%. O Brasil investe 1,19%, menos de um quinto do que Israel coloca na mesa.

Cada país escolheu um tema diferente para apostar: a Coreia foi em semicondutores, a Alemanha em manufatura avançada, a China em não depender de tecnologia estrangeira. Os temas mudam, mas a lógica é sempre a mesma: escolher pouco, apostar alto, e sustentar essa aposta por muitos anos seguidos.

Quando o jogo muda de mão em mão

A disputa entre países deixou de ser sobre quem tem o setor mais forte e passou a ser sobre quem constrói primeiro certas capacidades: segurança alimentar, energia própria, remédio e vacina sem depender de fora, segurança digital, domínio de novos materiais. Cada uma dessas capacidades atravessa vários setores ao mesmo tempo, e é por isso que inovação parou de ser assunto só de cientista.

A própria Nova Indústria Brasil já mostra essa virada na prática: coloca defesa e soberania nacional como uma de suas seis missões oficiais, ao lado de saúde e agroindústria. O texto da política já assume, sem rodeios, que inovação é hoje assunto de indústria, de meio ambiente, de defesa e de política externa ao mesmo tempo. Não é interpretação nossa. É o que esstá escrito e documentado.

O que ainda não sabemos

As mais de 500 recomendações da conferência nacional ainda estão virando texto final da ENCTI. É um jogo em andamento, e isso deixa perguntas sem resposta no ar: as apostas escolhidas hoje bastam para os desafios dos próximos 10, 20 anos? 

Tem outra pergunta que pesa tanto quanto: como transformar dinheiro anunciado em resultado de verdade? Escolher as apostas certas no papel não garante nada sozinho, e é exatamente nesse intervalo entre orçamento aprovado e capacidade construída que boa parte das políticas industriais do mundo tropeçam.

E fica uma terceira, talvez a mais difícil: que conexões entre ciência, empresas, investidores e gverno ainda faltam construir para que essas fichas na mesa virem, de fato, capacidade instalada no país?

Onde a Wylinka senta nessa mesa

Ao longo dessa análise, um padrão se repete: os países que decidem primeiro onde investir não são necessariamente os que chegam primeiro à capacidade que buscam. A aposta declarada em um plano é só o ponto de partida.

O Brasil já escolheu suas apostas. ENCTI, Nova Indústria Brasil, Lei do Bem e o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação apontam na mesma direção: bioeconomia, soberania tecnológica, reindustrialização, transformação digital. O que ainda está em aberto é se as conexões entre ciência, empresas, investidores e Estado vão se formar na velocidade e na escala que essas apostas exigem.

Porque decidir o que priorizar é a parte mais simples da equação. O difícil é construir, ano após ano, as pontes entre quem produz conhecimento, quem tem capital, quem transforma isso em produto e quem cria as condições para que esse ciclo se sustente. É exatamente nesse intervalo, entre a aposta escrita no papel e a capacidade construída na prática, que cientistas, instituições, universidades, investidores e formuladores de política pública precisam se encontrar para transformar prioridade anunciada em capacidade de soberania nacional.

E é nessa fronteira que seguimos, articulando, conectando e desenvolvendo pessoas, deep techs e ecossistemas de inovação científica.

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