Tem muito dinheiro indo para a ciência. Mas que futuro estamos financiando?
Seguimos o rastro do capital global para entender que capacidades estratégicas o mundo, e o Brasil, estão escolhendo construir.
Há um bom tempo, nossa pauta aqui na Wylinka é olhar o investimento em ciência como sinal estratégico. Cada aporte, seja de um fundo de venture capital, de um programa público de pesquisa e desenvolvimento ou de uma empresa privada, denuncia uma aposta sobre o que vai importar daqui a dez, vinte anos. Então decidimos seguir esse rastro. A pergunta que abre este texto é simples: que futuro estamos financiando?
Seguindo o rastro do capital global
2026 bateu recorde no investimento em empresas inovadoras. Só nos seis primeiros meses do ano, o mundo investiu US$ 510 bilhões em capital de risco, o dinheiro que financia negócios ainda em fase de crescimento (veja os números). Isso supera tudo o que foi investido em 2025 inteiro.
Mas números soltos não contam uma história. O interessante aparece quando olhamos onde esse dinheiro está pousando. A inteligência artificial segue levando a maior fatia da atenção, ao lado de computação quântica, robótica e infraestrutura pesada de tecnologia (veja o relatório). Juntas, as startups de deep tech do mundo já valem US$ 3,9 trilhões concentradas em poucos lugares e nas empresas mais maduras.
No campo da defesa, o dinheiro também bateu recorde: US$ 35,4 bilhões em seis meses, espalhados por 415 rodadas de investimento. No Brasil, a bioeconomia, negócios que aplicam o conhecimento científico sobre a biodiversidade, já responde por 43% de todas as deep techs do país, com previsão de gerar até US$ 100 bilhões até 2032 (veja o levantamento).
Inteligência artificial, defesa, bioeconomia. Setores que parecem não ter nada a ver entre si. Só que, olhando de perto, todos apontam para a mesma direção.
O capital escolhe capacidades
A resposta começa a aparecer quando deixamos de olhar apenas para o setor que recebe o dinheiro e passamos a observar qual capacidade aquele investimento pretende construir. Estudos recentes sobre geopolítica mostram governos direcionando recursos para energia, defesa, segurança digital e outras áreas consideradas estratégicas justamente porque elas determinam o grau de autonomia de um país.
E é aqui que ciência, inovação e deep techs (startups criadas com base em pesquisas científicas) entram nessa equação. Construir uma capacidade estratégica não significa apenas financiar empresas de um determinado setor. Significa criar conhecimento, desenvolver tecnologias, formar pesquisadores, dominar infraestrutura e transformar descobertas científicas em soluções que possam ser produzidas e escaladas.
A China oferece um exemplo bastante claro. O país depende de chips estrangeiros para boa parte da sua indústria de tecnologia, então está investindo pesado para criar seus próprios semicondutores, do início ao fim da cadeia. Essa aposta atravessa a cadeia produtiva inteira: o objetivo é garantir autonomia para sustentar essa capacidade sem depender de terceiros.
É esse mesmo raciocínio que aproxima áreas tão diferentes quanto inteligência artificial, defesa e bioeconomia. Por trás de cada uma delas existem capacidades científicas e tecnológicas que precisam ser construídas e sustentadas ao longo do tempo. Uma descoberta em um laboratório pode dar origem a um novo material; esse material pode viabilizar uma tecnologia de defesa; uma nova tecnologia pode criar uma indústria inteira. No caso das deep techs, essa conexão é ainda mais evidente: são empresas que nascem justamente da tentativa de transformar conhecimento científico em tecnologias capazes de resolver problemas complexos.
Por isso, o que o capital está escolhendo não são apenas setores. Está escolhendo quais capacidades queremos ter no futuro. Capacidade de produzir nossa própria energia, desenvolver novos materiais, garantir segurança alimentar, dominar tecnologias de computação, responder a desafios de saúde ou aproveitar nossa biodiversidade com autonomia. Cada uma dessas ambições exige ciência, infraestrutura, empresas e capital capazes de sustentar uma trajetória longa de desenvolvimento.
É nesse ponto que geopolítica, economia e inovação passam a falar a mesma língua: quem decide quais capacidades financiar também está ajudando a decidir quais tecnologias, indústrias e possibilidades estarão disponíveis no futuro.
Onde o Brasil entra nessa corrida: ativos de sobra e muitas oportunidades à vista
O Brasil chega a essa conversa com uma combinação rara de vantagens. O país concentra cerca de 20% da biodiversidade do planeta, possui uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, produz ciência de qualidade e conta com universidades e centros de pesquisa que acumulam décadas de conhecimento.
O desafio está em transformar essa vantagem científica e natural em capacidade tecnológica. O Brasil pesquisa, descobre e desenvolve conhecimento, mas ainda existe uma distância considerável entre o que é produzido nos laboratórios e aquilo que consegue chegar ao mercado na forma de tecnologia, produto ou empresa.
O número que costuma aparecer nessa conversa é o investimento em pesquisa e desenvolvimento: 1,19% do PIB no Brasil, contra 4,9% em Israel e 3,45% nos Estados Unidos. Esse dado ajuda a dimensionar o tamanho do investimento, mas não explica sozinho o problema. A questão mais profunda é o que acontece com o conhecimento depois que ele é produzido.
Uma descoberta científica pode levar anos até se transformar em uma tecnologia comercial. Antes de chegar ao mercado, ela precisa passar por etapas de validação, proteção da propriedade intelectual, desenvolvimento tecnológico, testes, infraestrutura, regulação e, muitas vezes, pela criação de uma empresa capaz de levá-la adiante. É justamente nesse percurso que boa parte do potencial científico brasileiro encontra obstáculos.
A própria biodiversidade ajuda a ilustrar essa distância. O país possui uma das maiores reservas de recursos genéticos do mundo e, desde 2015, conta com uma legislação voltada a facilitar o acesso e a repartição de benefícios relacionados a esses recursos. Na prática, porém, pesquisadores e empresas ainda enfrentam burocracia e insegurança jurídica para transformar esse patrimônio em inovação (entenda a lei).
A ponte entre ciência e mercado
É nesse espaço entre o que o Brasil sabe, o que possui e o que consegue transformar em valor que as deep techs ganham relevância. Startups que levam descobertas e tecnologias desenvolvidas em universidades e centros de pesquisa para aplicações capazes de resolver problemas complexos da humanidade.
Mas a gente já sabe… atravessar essa fronteira não acontece rapidamente. Uma tecnologia pode funcionar no laboratório e ainda estar muito distante de um produto comercial. É preciso desenvolver, testar, escalar, proteger a propriedade intelectual, encontrar parceiros industriais, construir mercado e provar que existe demanda. Em muitos casos, esse processo leva anos.
É o que o mercado chama de “vale da morte“: o período em que a tecnologia já demonstrou potencial, mas ainda não alcançou maturidade suficiente para atrair capital privado nas mesmas condições de um negócio tradicional.
Por isso, a questão não é apenas se o Brasil tem ciência, capital ou ativos estratégicos. A questão é se temos as articulações necessárias para conectá-los. Se conseguimos fazer o conhecimento produzido no laboratório encontrar capital paciente, indústria, empreendedores, infraestrutura e mercado.
Sim, algumas articulações já estão acontecendo
Foi justamente para aproximar essas pontas que o Fórum Brasileiro de Deep Techs coloca diferentes atores do ecossistema na mesma mesa. Em Belo Horizonte, essa articulação ganhou forma no painel “Capital Para Mudar o Mundo”, que reuniu representantes da FINEP, da FAPEMIG e da ABGI para discutir uma questão central: como fazer o capital acompanhar uma tecnologia desde o laboratório até o mercado?

Os dados apresentados no painel ajudam a dimensionar esse desafio. Desde 2023, a FINEP já contratou quase R$ 43 bilhões em projetos que somam R$ 52 bilhões. Mesmo assim, 90% do apoio direcionado à carteira de deep techs ainda vem de subvenção econômica, dinheiro que não precisa ser devolvido. A concentração geográfica também preocupa: 88% dos recursos ficam no Sudeste, mais da metade apenas em São Paulo.
Ou seja, o Brasil sabe financiar projetos isolados, mas ainda está aprendendo a financiar trajetórias completas de maturação.
O zoom: quando a trajetória é do clima
O mesmo padrão aparece, com ainda mais nitidez, quando olhamos para um recorte específico dessas deep techs: as tecnologias climáticas, ou climate techs. Foi esse recorte que guiou a construção do estudo Rota Deep Techs Climáticas, feito pela Wylinka em parceria com a Din4mo.
O estudo nasce de um problema que este texto se propôs a refletir: muita tecnologia brasileira já funciona em laboratório, mas trava exatamente no momento de sair dele, no vale da morte que atravessa qualquer deep tech.
Entretanto, para especificamente tecnologias climáticas, este estudo propõe caminhos práticos para atravessar esse vale: o de-risking, transformar risco técnico em informação clara para quem investe, e o blended finance, mesclar dinheiro público, privado e filantrópico para dividir esse risco entre vários atores. Agora, some a isso o capital paciente, investidores dispostos a esperar mais tempo pelo retorno, e a política pública com direção clara, e temos os quatro ingredientes que se repetem em qualquer capacidade estratégica que um país decida construir.

Da quantidade ao sistema: a pergunta que fica
Ao longo dessa investigação, uma coisa fica evidente: o futuro não depende apenas de quanto dinheiro colocamos na ciência, mas de como conseguimos fazer esse dinheiro circular por todo o caminho que transforma conhecimento em capacidade estratégica.
O Brasil já tem ciência, ativos naturais, capital, instituições e articulações capazes de aproximar esses mundos. O que está em jogo é fortalecer as conexões entre eles para que avancem juntos. Ciência precisa encontrar capital. Capital precisa encontrar tecnologias com potencial. Tecnologias precisam encontrar indústria, empreendedores, infraestrutura e mercado. E políticas públicas precisam criar as condições para que essas conexões aconteçam e se sustentem ao longo do tempo.
Porque financiar o futuro é mais do que escolher onde colocar dinheiro. É construir as conexões capazes de fazer esse dinheiro transformar ciência em tecnologia, tecnologia em capacidade e capacidade em futuro.
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