Comportamento Empreendedor

O que o sucesso de Michael Jordan fora das quadras nos diz sobre Venture Capital?

23/março/2022

Não há indivíduo que não conheça o nome Michael Jordan. Dentro das quadras, ele foi o jogador ícone do Chicago Bulls – na liga de basquetebol americano (a NBA) – e está no primeiro lugar dos atletas mais bem pagos de todos os tempos, com um ganho de US$2,62 bilhões (ajustado à inflação).

Mais interessante que isso, porém, é o que ele ganha fora das quadras: 20 vezes mais do que dentro. Qual a razão de seu sucesso fora das quadras e o que isso tem a ver com a capacidade de captação de investimentos para startups? Contaremos neste texto!

De Armador ao Air Jordan – Onde tudo começou

Em 1984, ainda no início de sua carreira, Jordan ganhou o prêmio “Jogador Nacional do Ano”, ao jogar na liga universitária na Carolina do Norte. Nesse ano, MJ foi a terceira opção de escolha (ou #3 draft) para seu futuro time, o Chicago Bulls. Ele se tornou o melhor armador e jogador da história da NBA, sendo ovacionado por todos (ou quase todos, não é mesmo, mr. Pippen?).

Uma vez dentro da NBA, ainda no seu primeiro ano, grandes marcas como a Puma e Converse (na época, predominantes no setor) queriam tê-lo como jogador patrocinado; já ele, por sua vez, queria a Adidas, que não tinha interesse. Em 1984, a Nike – na época não tão grande no setor – fez uma proposta: a criação da marca Air Jordan Brand, contando com um contrato de $510 mil por ano ao jogador, mais stock options. O primeiro fruto disso foi o tênis Air Jordan 1, cujas vendas só no primeiro ano renderam US$126 milhões à marca.

A partir de 1997, a marca se tornou uma empresa da Nike e, desde então, tem se remodelado ampliando seu modelo de apenas venda de tênis (e outros itens relacionados à NBA) para parcerias com organizações e instituições esportivas, a exemplo do time de futebol “Paris Saint Germain” (ou PSG) e a divisão de futebol americano da Universidade da Califórnia (UCLA). Até hoje, de todas as vendas da marca, MJ recebe 10%

Foto: Unsplash

O pulo de Michael Jordan – de dentro para fora das quadras

Seu brilhantismo como jogador associado à imagem de estrela, permeado por todo o marketing envolvendo a Air Jordan, formou a receita especial para a construção de um branding pessoal que ecoaria por muitos anos depois O que o tornou, também, um sinal de sucesso onde quer que fosse.

Para entender melhor o impacto de sua presença, independente do setor, veja abaixo alguns dos investimentos do Michael Jordan, anos após sua atuação como jogador na NBA.

1 – Da quadra para o banco

Após vários anos fora das quadras, em 2010 Jordan comprou o time Charlotte Hornets, da Liga Leste da NBA, por US$275 milhões, tornando-se o primeiro former-player a ser dono de um time da NBA. Um detalhe interessante da aquisição é que o time é situado na Carolina do Norte, estado no qual o ex-jogador havia passado grande parte de sua vida, sendo este, inclusive, o palco do início de sua carreira jogando a liga universitária (NCAA) pela University of North Carolina at Chapel Hill.

Porém, o detalhe mais importante é o efeito da presença de Jordan no time: o grupo evoluiu bastante e passou a valer US$1.6 bilhões.

2 – Das apostas às e-apostas

Em 2015, MJ junto ao empresário Mark Cuban, investiu na Sportradar – empresa que fornece dados esportivos e de apostas ao vivo, assim como dados de probabilidade e serviços relacionados a detecção de fraude – em uma rodada de investimento de US$44 milhões. Em 2021, aumentou seu investimento e se tornou conselheiro especial da empresa. Alguns meses depois, a empresa se torna pública e passa a valer US$4 bilhões.

Nesse mesmo mercado, mas em 2020, o ex-jogador investiu na Draftkings, uma multi, em troca de uma posição de advisor no conselho da empresa, contribuindo em questões estratégicas. Embora não se saiba qual a participação acionária do ex-atleta na empresa, a mesma vale US$18 bilhões atualmente.

3 – Do Space Jam para o eSport Jam

Em 2018, Michael Jordan investiu US$26 milhões na aXiomatic, empresa na vanguarda da expansão do mercado dos esports e responsável pela Team Liquid, uma das equipes mais antigas e populares do esports. Atualmente a empresa vale US$300 milhões e está presente em várias modalidades de esports como “League of Legends”, “Dota 2”, “Counter-Strike: Global Offensive” e outros.

4 – Da NBA para o NFT

Ainda antes que os NFTs (ou tokens não fungíveis) explodissem em todo o mundo, M.Jordan investiu na Dapper Labs, criadora de tokens que valia US$2.6 bilhões. Essa empresa foi responsável pelas criação da NBA Top Shot – destaques de vídeos de jogadas e momentos relevantes da NBA -, no início de 2021 cujo movimento deu início à febre subsequente dos NFTs.

Apesar de outros ícones do mundo esportivo e do entretenimento terem se somado ao time de investidores posteriormente, desde a presença do MJ, a empresa realizou parcerias com a NFL (liga de futebol americano), a WNBA (liga americana de basquetebol feminino). A empresa ainda levantou uma rodada de serie D de US$250 milhões, passando a valer US$7.6 bilhões.

5 – De corridas nas quadras às de fora

Em 2021, com uma visão de promover proprietários negros nas corridas, o ex-jogador fundou seu próprio time, o 23XI Racing, para competir na Copa NASCAR, tendo como parceiro Danny Hamlin, um dos astros da Serie e, como piloto, Bubba Wallace, o único piloto negro na divisão principal da NASCAR e que deu a vitória à equipe em sua primeira corrida em 2021. MJ trouxe também cinco importantes parceiros: Coca-cola, McDonald’s, Columbia, Root Insurance, DoorDash, e o recém criado time já tem sido avaliado em US$150 milhões.

Foto: Pexels

A conclusão? Apresentamos a Signalling Theory

Pelo visto, todos os empreendimentos e investimentos que envolveram MJ deram e estão dando (muito) certo, e sua fortuna é estimada em torno de quase 10 bilhões de reais. Coincidência? Talvez não.

É aí que entra o conceito de Signalling Theory em Venture Capital. Segundo a teoria, que conta com belas análises estatísticas em periódicos internacionais famosos, investidores de Venture Capital investem baseando-se mais em sinais do que em fatos. Em um cenário de muito ruído e muita assimetria de informação (eu, investidora ou investidor, não tenho tanta certeza que as centenas de startups que eu avalio entregam tudo o que prometem), a utilização de sinais – diplomas do time, parcerias, interesse de outros fundos – acaba por se tornar a saída comum.

E o que Michael Jordan tem a ver com isso? A existência dele como investidor de uma startup é um dos maiores sinais de mercado possível, passando uma mensagem como: “puxa, eles(as) parecem ser bem influentes/conectados para conseguir o MJ investindo; MJ no board já vai dar mídia espontânea e facilitar a distribuição desse produto”.

O sucesso do mesmo com investidor tem como parte o entendimento de que a mera participação dele como investidor já alavanca a empresa e atrai grandes fundos. É claro, que há qualidade de análise por trás das suas decisões, mas utilizar o seu sucesso como alavanca é tão genial quanto saber o que vai dar certo ou não.

A conclusão disso tudo é que empreendedores(as) saibam o papel de sinais de mercado no processo de atração de investimentos, e com isso consigam jogar bem e se posicionar no processo de fundraising. Para reforçar nosso ponto, adicionamos abaixo dois trechos de um famoso artigo sobre Signalling Theory, no qual os autores descobriram evidências que mostram associação positiva entre proeminência dos investidores e capacidade de obter grandes investimentos.

Complementamos com um cenário a se atentar: aceleradoras e anjos não proeminentes apresentam associação negativa (ou seja, atrapalham) na capacidade de obtenção das grandes rodadas. É claro que existem muitas nuances nessas análises (recomendamos a leitura do artigo por inteiro), mas cabe a reflexão para quando tomar sua decisão de como captar recursos.

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Autor: Artur Vilas Boas – Pesquisador na USP em empreendedorismo e inovação (Linkedin)