Políticas de Inovação

Racismo climático e como a inovação pode ajudar!

18/janeiro/2022

O que é racismo climático? As mudanças climáticas estão aí, porém nem todos a sentem da mesma forma já que seus impactos têm gênero e cor.

Em 2021, eventos extremos alarmaram o Brasil e o mundo. O que colocou em pauta, mais uma vez, as mudanças climáticas, transformações ocasionadas pelo aumento gradual da temperatura do planeta que, desde 1800, têm sido impulsionadas por atividades exploratórias humanas, principalmente pela a queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás.

Incêndios florestais, furacões, recordes de temperatura elevada, invernos sem precedentes, inundações e secas estão se tornando notícias corriqueiras nos jornais, mostrando que as crises ambientais fazem parte da jornada que temos pela frente.

Assim, cada vez mais, tem se debatido sobre a vulnerabilidade da população periférica frente aos impactos climáticos e o termo racismo climático vem se tornando comum nos debates sobre sustentabilidade. Ele foi abordado, inclusive, na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26), realizada no final de 2021 em Glasgow, na Escócia. Mas você sabe o que o termo racismo climático significa?

Racismo climático e Mudanças climáticas

Antes de falarmos em racismo climático é preciso definir o que é racismo. Segundo o dicionário Oxford Languages racismo é definido como, “preconceito, discriminação ou antagonismo por parte de um indivíduo, comunidade ou instituição pelo fato de pertencer a um determinado grupo racial ou étnico, tipicamente marginalizado ou uma minoria”.

Em 2019, o autor José da Silva destacou em seu livro que o racismo é estrutural, ou seja, ele integra a organização econômica e política da sociedade, uma vez que fornece o sentido, a lógica e a tecnologia para a reprodução das formas de desigualdades e violência que moldam a vida social contemporânea.

Já racismo climático é um termo novo, que aborda a intersecção entre injustiça racial e injustiça ambiental em que grupos, que foram historicamente explorados e que menos contribuíram para o colapso climático, são os mais expostos às alterações do clima. O termo é visto como a mesma coisa que racismo ambiental, conceito, cunhado por Benjamin Chavis, reverendo americano e assistente de Martin Luther King Jr. no movimento por direitos civis nos EUA, que dá nome ao mecanismo pelo qual os piores efeitos da degradação ambiental acabam destinados às populações negras ou indígenas.

A expressão surgiu em meio a pesquisas e ao ativismo sobre outro fenômeno, a injustiça ambiental, que aborda a existência de sociedades desiguais, em que há desequilíbrio no acesso aos recursos ambientais e na carga dos danos do desenvolvimento para grupos marginalizados. A questão surgiu há mais de 40 anos atrás, em 1978, quando moradores do bairro de Love Canal, em Nova York, descobriram que suas casas haviam sido construídas junto a um aterro com dejetos industriais e bélicos.

No Brasil, áreas de população majoritariamente negra, como as comunidades, são mais sujeitas a efeitos da poluição hídrica, do despejo de lixo e dos eventos climáticos extremos, como inundações, que podem causar deslizamentos. O que torna possível fazer uma ponte simples, conceitualmente falando, sobre o racismo ambiental e a herança escravocrata do Brasil. Afinal, o que foram feitos dos escravizados pós “abolição”?

As primeiras favelas brasileiras surgiram no século XIX, após a abolição da escravatura, de forma que os escravos foram segregados da população branca, os quais permaneceram em zonas de risco, próximos aos morros, córregos, etc.  Contudo, o termo “favela” surge no contexto da Guerra de Canudos (1896 a 1897), para se referir ao “Arraial de Belo Monte”, que existia no “Morro da Favela”. Hoje em dia 67% dos moradores de favelas são negros, segundo o estudo “Economia das Favelas – Renda e Consumo nas Favelas Brasileiras”. Além disso, 49% desses lares são chefiados por mulheres.

Desafios

O esgoto de Julia* não é encanado e cai direto no córrego em frente sua casa, próximo à rua em que seus filhos brincam. No verão o odor é insuportável e durante as chuvas fortes o córrego enche e leva para sua casa a água suja. Já Kelly* apesar de morar próximo a uma área nobre da cidade, tendo água encanada e acesso fácil aos centros comerciais, morre de medo quando escuta as primeiras trovoadas e já se prepara para levantar seus móveis e tentar salvar suas roupas e alimentos. É que todo início de ano a história se repete: a chuva cai e o córrego que passa entre as avenidas alaga inundando diversas casas. Do outro lado da cidade, Vera* se desespera para pegar seus documentos e uma muda de roupa, ela irá para a casa de familiares, pois a casa em que mora com seus quatro filhos está condenada e irá desabar.

Apesar de fictícias é só olhar para os jornais para conhecer várias Julias, Kellys e Veras da vida real.  A falta de saneamento básico e problemas no abastecimento de água são exemplos, corriqueiros, de como a divisão desigual do território impacta a vida e as condições de saúde de pessoas que são historicamente condicionadas a ocupar as periferias, favelas e morros tão comuns no nosso país. 

Esse é o resultado do racismo ambiental, que em sua ação contínua e constante condiciona uma parcela específica da população brasileira a problemas ambientais e acidentes naturais que não chegam às zonas nobres e centrais das cidades. Segundo relatório da organização Anistia Internacional, publicado em agosto de 2021, a crise climática não é só uma crise ambiental, mas de direitos humanos, cujas consequências são injustas entre diferentes países, populações e gerações.

O documento aponta que direitos como à vida, à saúde, à água, à alimentação, à moradia, à autodeterminação e ao trabalho são prejudicados pelos efeitos da mudança do clima. Assim, esses ambiente são descritos, institucionalmente, pelas suas ausências e do ‘não lugar’:

  • Não acesso a habitações de terrenos regulares;
  • O não acesso ao saneamento básico;
  • O não acesso à infraestrutura que reduza riscos de enchentes e deslizamentos;
  • A ausência de segurança alimentar;
  • O não acesso à água;
  • O não acesso à energia;
  • A inexistência de estruturas resilientes, confortáveis e seguras são incontáveis.

Não olhe para cima, olhe para a Bahia

Outro exemplo real das mudanças climáticas são as chuvas que atingiram o Estado da Bahia. Já são mais de 815 mil pessoas impactadas pelas chuvas, segundo a Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia (Sudec). Ao todo, 520 ficaram feridas, 28.224 estão desabrigados – ou seja perderam seus imóveis e precisam de apoio do poder público –, e 73.032 estão desalojados – também perderam os imóveis, mas foram alocadas em casas de familiares. Além disso, já são 26 mortes.

Segundo o historiador Douglas Belchior, cofundador da Coalizão Negra por Direitos, o que vemos na Bahia é uma situação de emergência climática. Ele esteve na COP26 e defende que este é mais um exemplo de racismo ambiental, onde as consequências da crise climática afetam, normalmente, desproporcionalmente famílias indígenas, negras e em situação de vulnerabilidade.

A incidência desses problemas não é aleatória como se costuma imaginar, por se tratar de uma questão ambiental. A chuva “não escolhe” onde cair, mas as condições ambientais também são condicionadas pelo sistema, diante do cenário de poluição do ar, de desmatamento, e de casas construídas em lugares perigosos, em morros passíveis de deslizamento.

Porém, mesmo quando não ocorrem eventos climáticos extremos ou crimes ambientais, a população negra e pobre do país encontra-se sob maior exposição a riscos ambientais. Para se ter uma ideia, desde o início da década de 2000, estudos têm demonstrado que, na cidade de São Paulo, cerca de 28% da população residente em regiões periféricas vivem sob risco ambiental de enchentes ou deslizamentos. Em regiões de classe alta, apenas 9,9% da população estão expostas ao mesmo risco.

Negócios de Impacto e o seu papel

Mas o que a ciência e a inovação têm a ver com isso? Tudo! 

Os investimentos globais em impacto estão crescendo em curva exponencial, segundo o último relatório de investimento de impacto realizado pelo GIIN (Global Impact Investing Network), foram mais de US$220 bi aportados ao redor do mundo só no ano de 2017, no setor de ‘Negócios de Impacto Social e Ambiental’.

Na Wylinka, acompanhamos de perto a evolução desse setor, que ficou conhecido como 2.5 — um ponto intermediário entre empresas e organizações não governamentais. Estando dentro do ecossistema de Negócios de Impacto, vemos um ambiente efervescente e dinâmico que vem fomentando o nascimento e desenvolvimento de mais e mais empresas que conciliam lucro e impacto positivo.

A Pluvi.On é um exemplo, de como alinhar tecnologia e impacto ambiental. Com um hardware 100% nacional, a startup se especializou em monitoramento climático preciso e oferece previsões acuradas, localizadas e a baixo custo — que podem ajudar a alertar a população em caso de enchentes e deslizamentos.

A empresa, começou em 2016, como um projeto de impacto social de residência da Red Bull Basement, em São Paulo. Em dois anos, a equipe desenvolveu um pluviômetro – medidor de chuvas – que busca ser mais econômico e prático em relação aos equipamentos importados, além de oferecer dados precisos sobre o clima, tendo um sistema que permite emitir alertas por região.

Se em algumas regiões do Brasil o problema é o excesso de chuva em outras a seca é o que assola as famílias. Hoje, mais de 1,2 milhão de famílias tem cisternas na região semiárida. Para se ter uma ideia, em média, 8 mil unidades são implantadas, por ano, pelo governo. Nesse sentido, a fata de água potável nessa região exige soluções simples, baratas e eficientes, como o dispositivo Aqualuz. A tecnologia desinfecta a água de cisterna de captação de água de chuva de zonas rurais, por meio da radiação solar.

A ideia surgiu na mente da estudante Anna Luísa Beserra quando tinha 15 anos e foi aprimorada no curso da faculdade de Biotecnologia na Universidade Federal da Bahia. Ao lado de colegas, a pesquisadora fundou a startup de impacto socioambiental, a Safe Drinking Water For All (SDW) que desenvolve tecnologias hídricas para tratamento, monitoramento, avaliação ou distribuição da água.

O Aqualuz é formado por uma caixa de inox coberta por um vidro, com um indicador que muda de cor quando a água está pronta. Há também uma tubulação ligada à cisterna – reservatório usado para armazenar água da chuva ou de caminhão-pipa. A tecnologia, que já foi premiada pela ONU, filtra em média 30 litros de água por dia e tem uma durabilidade de cerca de 20 anos, com uma manutenção simples de limpeza com água e sabão e troca de filtro anual, sem precisar de energia elétrica.

Mais do que objetos de estudos

Contudo, o setor de ‘Negócios de Impacto Social e Ambiental’ ainda é um tema desconhecido por muitos atores no Brasil que podem contribuir. Tanto de investimento, quanto em educação, pesquisa, ciência e tecnologia. A nossa CEO, Ana Calçado, fala mais sobre isso nesse artigo.

Assim, o recado final que fica é a alarmante ausência de políticas que valorizem a qualidade de vida da população periférica, tendo em vista que até os impactos ambientais causados por fenômenos naturais atingem de maneiras diferentes as pessoas que vivem na mesma cidade. Mostrando que mesmo perante as ações da natureza, há uma dimensão humana que a institucionaliza, ação estigmatizada a partir das nossas construções sociais e de um olhar para o outro a partir da raça e gênero.

É preciso ter em conta que não basta surgirem mais programas de incubação e aceleração: os territórios e os empreendedores demandam programas customizados. Nesse sentido, o racismo climático (racismo ambiental) também demonstra a necessidade de trazermos as comunidades para os debates climáticos, não apenas como objetos de estudo, mas como agentes de mudança e protagonistas de políticas e modelos de um mundo de baixo ou zero carbono.

Afinal, as periferias e as populações tradicionais também querem ser agentes em um mundo com menos emissões, e não apenas resultados de impactos ou metas.

Quer saber mais?

O que o antirracismo pode ensinar ao campo das mudanças climáticas? – Cartilha produzida pelo Perifa Connection, iniciativa em parceria com o iCS com o propósito de levar formação em questões climáticas para 15 comunicadores e ativistas que vivem nas periferias do Rio de Janeiro.

Podcast Revoar: Racismo climático?ouça o que a Amanda Costa, colunista da Agência Jovem de Notícias e criadora do projeto Perifa sustentável, e o Diosmar Santana Filho, geógrafo, doutorando, pesquisador e coordenador do projeto “Mudanças Climáticas em face do Reconhecimento dos Territórios Negros” tem para falar sobre o tema.

A Ciência de Dados na Transformação Socialsaiba mais sobre a Pluvi.On e o seu trabalho na detecção e emissão de alerta de chuvas.

Referências usadas 

AutoraTuany Alves (jornalista e analista de comunicação pela Wylinka)

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