O ensaio de Paul Graham que questiona o empreendedorismo em universidades
É isso mesmo que você leu: Paul Graham, um dos nossos ensaístas favoritos, publicou em agosto um ensaio bastante controverso sobre como preparar fundadores de startups nas universidades, e boa parte do seu argumento, é sobre tirar muito da ênfase do empreendedorismo nas universidades. Soa muito estranho perto de tudo que a gente trata aqui nesses últimos muitos anos, né? E, bom, pra gente também foi estranho, mas lendo o texto entendemos alguns dos pontos principais, concordamos com a maioria, mas identificamos algumas falhas que queríamos compartilhar por aqui. Afinal, se tem Paul Graham, se tem empreendedorismo e se tem universidade, com certeza a gente vai querer abordar.
Para quem não sabe, além de excelente ensaísta, o PG é o criador da Y Combinator, a mais bem sucedida aceleradora de startups do mundo. Se você não conhece, é só procurar por aqui que escrevemos pelo menos uma meia dúzia de textos que cita a YC nesses últimos anos (não contamos, mas nos conhecemos bem o suficiente pra saber disso rsrs). Diante disso, ele defende esse contexto da YC como um ótimo lugar de fala para o tema, a Y Combinator recebe, todo ano, milhares de recém-formados, e depois de vinte anos de programa consegue enxergar com precisão o que diferencia quem vira fundador de sucesso de quem não vira.
E qual é o padrão que eles estão percebendo ao acompanhar tantos bons recém-formados? A leitura é clara: bons investimentos estão nos builders, e não necessariamente nos empreendedores profissionais. A partir dessa provocação, o PG traz uma série de pontos que vamos detalhar melhor a seguir.
Prepare-se para a leitura, porque vamos explorar essa ideia a fundo!
Ponto-chave 1: o currículo duro é o ativo mais valioso que a universidade tem
Paul Graham defende que a universidade não deveria criar um currículo de empreendedorismo. Deveria continuar fazendo o que já faz de melhor: ensinar bem ciência da computação, engenharia mecânica, biologia molecular, entre outros temas. Porque a parte difícil de uma startup é produto, saber o que construir e ser capaz de construir, e esse conhecimento vem de domínio técnico profundo, não de uma disciplina de gestão. Para nós, da Wylinka, que temos um pé enorme em universidades de pesquisa, esse é um ponto que adoramos e concordamos demais.
Inclusive, esse é um argumento que se conecta com algo que já defendíamos antes de ler esse ensaio: a graduação é o único momento da vida profissional em que alguém pode se aprofundar de verdade em algo difícil, sem o custo de oportunidade que o mercado impõe depois. Um aluno que passa quatro anos construindo domínio técnico real sai mais preparado para fundar uma empresa do que um aluno que passa o mesmo tempo em disciplinas de “empreendedorismo” genéricas.
Onde discordamos é no bloco seguinte do ensaio. O PG argumenta que pessoas inteligentes são naturalmente atraídas por ideias poderosas, então, enquanto existirem departamentos ensinando essas ideias, quem tem perfil de bom fundador vai encontrá-las por conta própria. É um argumento que soa razoável, mas carrega dois problemas. O primeiro é que se aproxima do efeito descrito por Ha-Joon Chang em Chutando a Escada, quem já chegou lá em cima tende a esquecer o quanto de estrutura precisou para subir. Não achamos que seja intencional da parte dele (esperamos que seja apenas um ponto cego), mas não pode ser ignorado. O segundo problema é mais concreto: essa confiança de que “bons fundadores vão encontrar o caminho sozinhos” ignora que reconhecimento de oportunidade, separar sinal de ruído, validar uma hipótese antes de construir demais, entender a causa raiz de um problema de indústria em vez do sintoma mais visível, é uma competência treinável. A base de alunos que passa pela YC vem majoritariamente de Harvard, Stanford, MIT, Yale, Princeton: ambientes onde capital social e experiências prévias já fazem parte das habilidades de reconhecimento de oportunidade antes mesmo da faculdade. Isso não é padrão para a maioria dos alunos de graduação, no Brasil ou fora dele. É exatamente esse gap que programas de capacitação em empreendedorismo nas universidades deveriam resolver (pelo menos na nossa opinião).
Ponto-chave 2: Fazer o aluno acreditar que é algo que ele pode fazer
A parte do texto que achamos mais bem resolvida trata de autoeficácia, mesmo sem usar esse termo. Graham argumenta que, até um aluno ver um fundador de perto, empreender parece coisa de outro mundo, algo que “outras pessoas” fazem. Ver um fundador de verdade quebra essa bolha de um jeito duplo: a pessoa parece competente, mas também parece humana, principalmente quando fala dos erros do começo.
“Quando uma universidade já possui uma cultura de criação de startups, não é preciso convencer os estudantes de que essa é uma opção viável. Os novos estudantes aprendem isso com os mais antigos. Em uma universidade que ainda não possui uma cultura de startups consolidada, porém, há algumas coisas que podem ser feitas para ajudar a promover essa percepção. Provavelmente, a estratégia mais eficaz é apresentar aos estudantes exemplos de pessoas que fizeram isso.
Até conhecer alguns fundadores pessoalmente, é comum pensar que criar startups é algo feito por “outras pessoas”. Conhecê-los pessoalmente rompe essa barreira. Na verdade, conhecer fundadores na vida real é duplamente inspirador: eles parecem pessoas impressionantes, mas também parecem humanos. Isso fica especialmente evidente quando falam sobre os primeiros anos, quando ainda não sabiam exatamente o que estavam fazendo e cometeram muitos erros.
Assim, de maneira um tanto paradoxal, conhecer fundadores pessoalmente faz com que ser um deles pareça, ao mesmo tempo, desejável e possível. Isso leva os estudantes a pensar: ‘Eu quero ser como essa pessoa, e se bobear eu consigo ser como ela.’”
Ele vai além e propõe uma fórmula informal que a gente adorou: o quanto um fundador inspira um aluno é proporcional a quão rico e famoso ele é, dividido por quão mais velho ele é em relação ao estudante. Na prática, isso derruba a ideia de que é preciso trazer bilionário para o campus, um fundador de vinte e poucos anos, três anos de empresa, alguns milhões de valuation, inspira mais do que qualquer unicórnio distante, porque é ordens de grandeza mais fácil de se identificar com ele. Para quem constrói programa de inovação dentro de universidade, isso é praticamente um roteiro: menos palestra de encerramento com nome grande, mais roda de conversa recorrente com quem está no ano dois ou três de startup.
Ponto-chave 3: Projetos próprios pesam mais do que plano de negócio
O terceiro pilar do ensaio é que a universidade deve incentivar o aluno a trabalhar nos próprios projetos, de preferência sem qualquer intenção comercial declarada. É nesse processo que, na nossa experiência, o aluno entra em contato com algo que sustenta empreendedores a carreira inteira: a autonomia de captar recurso e transformar em valor, sem ninguém dizendo o que fazer. E, segundo PG, é dali que vêm as melhores ideias de startup, porque ideia boa de verdade costuma parecer implausível demais para quem está procurando conscientemente por uma ideia de startup (sobre isso, ele tem uma série de outros ensaios – vale a leitura).
A ressalva que fazemos aqui é a que mais nos importa registrar: esse processo de descoberta não precisa ser deixado inteiramente ao acaso. Ferramentas de customer development, prototipagem rápida, teste de hipótese, tudo isso acelera a capacidade de um projeto pessoal pivotar para algo com tração real. Aqui as disciplinas e programas de empreendedorismo ajudam muito, e isso não precisa necessariamente ser feito com currículos muito engessados.
Por fim, nesse mesmo tema o ensaio termina com uma provocação bem ácida sobre métricas que achamos bastante pertinente para gestores de universidade e de programas de inovação: uma universidade fazendo exatamente o certo, na prática, parece que não está fazendo nada. Sem centro de inovação, sem disciplina com “empreendedorismo” no nome, sem competição de plano de negócio. Só aluno estudando fundo o que interessa a ele e mexendo, nas horas vagas, num projeto que não tem relação nenhuma com a grade curricular. É difícil de medir e difícil de justificar para quem cobra resultado no curto prazo, mas é o que, de fato, prepara os builders que a YC tanto adora (e nós também). O desafio é sempre esse: como metrificar? Paul Graham defende que não dá, e por isso as universidades não são o melhor espaço para ficar desenhando programas intencionais de empreendedorismo (aí passou um pouco do ponto, né, PG? rsrs).
E o que fica para quem gerencia universidade ou programa de inovação?
O convite do ensaio, lido de conjunto, é menos sobre o que ensinar e mais sobre o que parar de atrapalhar: manter o rigor técnico da graduação, devolver tempo livre ao aluno mais ambicioso, aproximar quem está construindo hoje de quem está pensando em começar amanhã. Nenhuma dessas três coisas custa orçamento de inovação, custa disposição de confiar em algo que não aparece em relatório trimestral.
A parte que gostaríamos de acrescentar, com a experiência de quem trabalha capacitando pesquisadores e alunos todos os dias, é que confiar no processo não significa abrir mão de ensinar processo. Reconhecimento de oportunidade não é dom reservado a quem nasceu/cresceu perto do capital certo, é competência, e competência se treina, inclusive, e principalmente, dentro das universidades de pesquisa. E é muito por isso que nascemos e existimos há tanto tempo, vimos histórias muito bonitas surgindo de programas assim, e queremos que cada vez mais histórias aconteçam.
O ensaio do PG é, portanto, um pouco duro, mas ao mesmo tempo muito valioso. Algumas das premissas são fundamentais e amplamente negligenciadas por gestores universitários. Outras premissas são meio exageradas e fora de realidades diferentes das Ivy League americanas, por isso sempre esse grão de sal que colocamos assim. De toda forma, recomendamos – leiam tanto esse ensaio quanto todos os outros do PG. Ele é sensacional e nos inspiramos muito no que ele escreve. E se quiser ir além da visão dele e implementar algo na sua universidade, não deixa de entrar em contato com a gente! É só entrar em contato com nossa equipe comercial (contato@wylinka.org.br) e nos acompanhe no LinkedIn e Instagram – vamos adorar bater um papo e construir junto com você!
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