Empreendedorismo na Universidade

Educação empreendedora: aonde se encontra e para onde as pesquisas apontam?

28/junho/2020

Educação empreendedora: aonde se encontra e para onde as pesquisas apontam?

Recentemente, um dos líderes da Wylinka, o Artur Vilas Boas, publicou um artigo científico fruto de uma pesquisa bastante interessante: uma análise dos artigos mais relevantes em ensino de empreendedorismo, categorizando e identificando tendências futuras. O trabalho, publicado na REGEPE, analisou 934 artigos acadêmicos no assunto e, por meio de um algoritmo de relevância, identificou 54 artigos correspondente a mais de 50% das citações acumuladas. Destes, o estudo pode ser feito em profundidade — e agora vamos às respostas.

Photo by Med Badr Chemmaoui on Unsplash

As 3 fases da construção da pesquisa em ensino de empreendedorismo

A pesquisa atual em ensino de empreendedorismo possui uma construção temporal interessante. Nessa trajetória, foi possível identificar três fases: (i) apreciações iniciais; (ii) emergência de frameworks; (iii) detalhamento por metanálises.

Nas apreciações iniciais, encontram-se as primeiras reflexões, muitas com um caráter quase que de ensaio teórico, sem muito método científico por trás. Um bom exemplo desse período é o trabalho de Kuratko (2005), que, em um dos artigos mais citados no assunto, defendia que empreendedorismo poderia ser ensinado, que já haviam publicações e resultados o suficiente para uma era de maior maturidade na pesquisa e que o assunto poderia ser explorado mais profissionalmente de lá para frente.

Seguindo esse período, emergiram os frameworks em trabalhos como os de Béchard e Gregoire (2005), Pittaway e Cope (2007), e Fayolle (2013). Tais trabalhos tinham como objetivo desenhar arcabouços de interações entre agentes, contexto estudantil e, muitas vezes, relações políticas e sociais. No exemplo abaixo, tem-se o arcabouço de Pittaway e Cope, que trouxe uma abordagem sistêmica para o ambiente de uma universidade no ensino de empreendedorismo, abrangendo currículo, atividades extracurriculares, relação com empresas, atividades de recrutamento de alunos, políticas de propriedade intelectual, percepção da sociedade sobre empreendedorismo e mais.

Fonte: Pittaway & Cope (2007)

A terceira fase vem com o período das metanálises. Tais trabalhos se voltaram para analisar a produção acadêmica no assunto e, a partir de grandes análises, tirar conclusões sobre. Exemplos aqui são os trabalhos de Rideout e Grey (2013) e Nabi et al. (2017), que, após analisar centenas de estudos chegaram a conclusões como: (i) a necessidade de melhores indicadores para ensino de empreendedorismo; (ii) a necessidade de sair da análise pura sobre intenção de empreender, e migrar para o ato em si (intention-to-behavior transition); (iii) a necessidade de análises discriminantes, como as que analisem, por exemplo, a diferença entre métodos ativos e métodos tradicionais; (iv) a necessidade de estudos mais robustos, com poder de inferência, quasi-experimentos, relações de mediação/moderação e mais.

Com os fundamentos do passado organizados, é hora de olharmos para o presente e o futuro: os resultados da pesquisa.

As 9 categorias dos trabalhos mais relevantes em ensino de empreendedorismo

Ao analisar em profundidade os 54 artigos mais relevantes filtrados pelo algoritmo, o estudo conseguiu identificar 9 categorias principais:

  1. Artigos referentes à relação entre Ensino de Empreendedorismo e intenção em empreender, com 15 trabalhos;
  2. Artigos referentes aos processos de aprendizagem no Ensino de Empreendedorismo, com 8 trabalhos;
  3. Artigos no formato de ensaio crítico sobre Ensino de Empreendedorismo, com 8 trabalhos;
  4. Artigos fundamentados em revisões sistemáticas da literatura em Ensino de Empreendedorismo, com 7 trabalhos;
  5. Artigos sobre boas práticas em sala de aula para Ensino de Empreendedorismo, com 6 trabalhos;
  6. Artigos sobre estudos de gênero em Ensino de Empreendedorismo, com 3 trabalhos;
  7. Artigos abordando Ensino de Empreendedorismo sob a ótica do reconhecimento de oportunidades, com 3 trabalhos;
  8. Artigos sobre Ensino de Empreendedorismo no contexto de negócios sociais, com 3 trabalhos;
  9. Artigos abordando Ensino de Empreendedorismo sob a visão baseada em competências, com 2 trabalhos.

A primeira categoria, sobre intenção, se destaca por ter um nível maior de robustez e uma sólida fundamentação teórica. Cabendo destacar as fragilidades de tal linha de pesquisa: intenção muitas vezes não significa competência ou conhecimento (a famosa história dos “burros motivados”), bem como a complexidade dos vieses desses trabalhos (alguns feitos logo após alguma intervenção educacional, naturalmente motivadora, outros não considerando que as pessoas que escolhem os cursos naturalmente têm mais intenção de empreender, sendo tal intenção não resultante dos cursos em si).

Uma outra categoria que merece atenção é a sobre estudos de gênero, com artigos começando a se destacar na pesquisa e com um trabalho — Gender, entrepreneurial self-efficacy, and entrepreneurial career intentions: Implications for entrepreneurship education (Wilson, Kickul e Marlino, 2007) — capturando um grande volume de citações (1882 citações). Outra categoria cuja temática pode interessar nossos leitores é a relativa a negócios sociais / negócios de impacto.

Para saber quais foram os principais artigos de cada categoria, recomendamos a leitura do artigo original escrito pelo Artur. Nele, você encontra uma tabela para categoria apresentando os artigos e autores principais. É ótimo para entender melhor a pesquisa.

E o que tem sido negligenciado? Qual o futuro das pesquisas em ensino de empreendedorismo?

Observando as categorias acima, entende-se que a academia tem prestado mais atenção em algumas perguntas: quais intervenções educacionais aumentam a intenção de empreender? quais processos de aprendizagem e práticas em sala de aul
a são mais efetivos? quais óticas funcionam para anlisar o ensino de empreendedorismo?

Apesar disso, outros horizontes podem ser também explorados. Um deles, o que mais acreditamos, é a da visão baseada em ecossistemas, que defende que a aprendizagem ocorre muito além da sala de aula tradicional — sendo talvez mais impactada pelo ecossistema de uma universidade (grupos estudantis, oportunidades interdisciplinares, projetos de pesquisa, incubadoras, estágios, intercâmbios, atividades esportivas e muito mais). Um outro trabalho do Artur, publicado no Triple Helix Journal e premiado pela Triple Helix Association (do prof. Etzkowitz, de Stanford) como melhor artigo do ano 2019, reforça essa tese analisando o ensino de empreendedorismo no MIT: que é permeado pelas diversas vivências no campus do Instituto. O artigo você encontra aqui, mas também tem uma visão geral dele nesse nosso post aqui.

Nessa linha, um outro horizonte identificado nesse estudo sobre artigos mais relevantes no ensino de empreendedorismo é sobre o protagonismo estudantil no processo de aprendizagem. Organizações estudantis autogeridas, como empresas juniores e ligas/núcleos de empreendedorismo são bastante poderosos devido à sua proximidade com o mercado e contato com temas de fronteira. Um dos exemplos mais famosos é o da aceleradora de startups criada dentro de Stanford, por seus próprios alunos, a StartX — que conseguiu suprir as deficiências da Universidade, uma das mais reconhecidas em empreendedorismo no mundo, e gerar mais de 1300 startups, com casos como a WifiSLAM, comprada pela Apple por US$20MM.

Por fim, o futuro das pesquisas em ensino de empreendedorismo deverá trazer análises mais aprofundadas, com maior poder discriminante, como levantado por Rideout e Grey (2013). Algumas reflexões para tais estudos possivelmente serão: o quão diferente são os resultados quando analisamos distinção por gênero? e por tipo de graduação? e qual o papel de background familiar em vivência empreendedora ou classe social? quais os impactos a longo prazo?

E você, que tal construir práticas de fronteira junto conosco?

Nesse texto, você encontrou um pouquinho das coisas que refletimos aqui na Wylinka — sempre pensando em como construir experiências de ensino de empreendedorismo. E se você quiser construir algo nessa linha, não deixe de mandar um email para o Winícius Oliveira (winicius.freitas@wylinka.org.br), nosso chefe comercial! Não deixe também de nos acompanhar no Facebook, Instagram e muito mais!

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