Futuros Melhores

Mulheres na Deep Tech

08/março/2022

Mais de 90% das startups no Brasil ainda são fundadas apenas por homens, é o que mostra o estudo Female Founders Report 2021. Elaborado pela empresa de inovação Distrito em parceria com a Endeavor, rede global de empreendedorismo, e a B2Mamy, empresa que capacita e conecta mães ao ecossistema inovador, a pesquisa mostra uma dura realidade: pouca coisa mudou em dez anos quando o ecossistema de startups ainda engatinhava.

Para se ter uma ideia, as empresas de base tecnológica fundadas apenas por mulheres representavam, em 2011, 4,4%, enquanto as que tinham fundadores de ambos os gêneros  eram 3,5%. Em 2020, esses índices são 4,7% e 5,1%. O cenário piora quando falamos de startups de Deep Techsempresas baseadas em conhecimento científico mais avançado e complexo -, uma vez que nem há dados.  

“A Wylinka se propõe ser uma ponte entre a ciência e o mercado, ambientes estruturados por meio de uma dinâmica em que as mulheres dificilmente alcançam posições de liderança”, destaca a nossa presidente diretora Ana Calçado. Assim, o nosso texto de hoje se propõe a falar um pouco sobre a dor da representatividade, uma vez que a pluralidade (tanto na academia, quanto no mercado) permitem uma visão holística sobre o processo, gerando resultados mais assertivos e inclusivos. Vamos juntas?

Mas afinal, esse é um problema do setor de inovação? Sim e não: no empreendedorismo tradicional 46,2% das empresas são fundadas por mulheres. O número ainda representa menos da metade, mas ainda é bem maior que os  9,8% – 4,7% fundadas exclusivamente por mulheres e 5,1% co-fundadas por elas – que temos atualmente no ecossistema de inovação.

Esses números mostram o quanto o empreendedorismo de inovação ainda é um ambiente muito restrito, quase como um clube do bolinha. Para se ter uma ideia, segundo o estudo #QuemCodaBR, realizado, entre 2018 e 2019, pelo PretaLab em parceria com a ThoughtWorks, o número de homens (68,3%) que trabalham no mercado de tecnologia brasileiro é mais que o dobro do número de mulheres (31,5%). 

Essa desigualdade, que começa no menor número de fundadoras e participantes, manifesta-se nas mais diferentes fases dos negócios, inclusive na permanência das mulheres em empresas de ciência e tecnologia e na captação de investimento dos empreendimentos chefiados por mulheres. 

Lugar de mulher é…

Confira alguns fatores críticos que afastam as mulheres da ciência, inovação e do empreendedorismo:

  1. Perpetuação de estereótipos

Quando você pensa em um cientista o que lhe vem à cabeça? Provavelmente um homem branco, não é mesmo? O movimento em prol das mulheres na ciência ainda pode ser considerado recente e, apesar de termos em nossa história diversas mulheres que fizeram descobertas fantásticas e essenciais para a sociedade que vivemos hoje (olá Ada Lovelace), cientistas ainda são vistos como homens de jaleco isolados em seus laboratórios. As consequências disso são inúmeras, não apenas para a pluralidade da ciência (que é muito mais rica quando diversa). Esse estereótipo segue na área de inovação, por exemplo, em que, historicamente, os homens são muito mais incentivados a ter uma postura “empreendedora” e a lidar com o risco.   

  1. Baixa cultura de inclusão

O setor de inovação brasileiro é branco, jovem e hétero. É o que mostra a pesquisa #QuemCodaBR, realizada entre 2018 e 2019. Segundo o estudo, na época, apenas um terço dos profissionais de tecnologia e inovação eram mulheres e pessoas negras. Em 95,9%, não havia nenhuma pessoa indígena nas equipes de trabalho em tecnologia; em 85,4% não havia nenhuma pessoa com deficiência, e em 62% não havia nenhuma mãe. Já uma publicação da “Harvard Business Review” aponta que os investidores privilegiam os pitchs de homens em detrimento dos das mulheres, mesmo quando o conteúdo do argumento de venda é idêntico. Notou um ‘padrão’?

Saiba mais sobre a relação das mulheres com pitchs e como isso pode afastá-las de oportunidades importantes aqui!

  1. Escassez de recursos financeiros e políticos

Lembra do estudo Female Founders Report 2021 que falamos mais em cima? Ele apontou que startups lideradas só por mulheres receberam apenas 0,04% dos mais de US$ 3,5 bilhões aportados no mercado em 2020. Além disso, 74% dos fundos não têm mulheres entre as partes fundadoras e em seus conselhos. Apenas 3% dos fundos têm, exclusivamente, mulheres entre as fundadoras. 

  1. Falta de apoio ao equilíbrio entre vida pessoal e profissional

Que a pandemia da Covid-19 afetou, e está afetando, a produtividade dos cientistas você já sabe, mas sabia que os efeitos não são os mesmos para todos? É o que mostra a pesquisa realizada pelo grupo Parent in Science. Segundo o estudo, 76% dos homens sem filhos disseram ter submetido artigos, contra 47,4% das mulheres com filhos. Já entre os casais a idade das crianças é um ponto que chama a atenção no levantamento, uma vez que quando o filho tem de um a seis anos, 52,4% dos pais conseguiram submeter artigos, contra 28,8% das mães. Com crianças de menos de um ano, a diferença é ainda maior: 61,1% para os homens e 32% para as mulheres.

Além da produtividade é importante lembrar que algumas atividades, como o networking, também demandam um tempo que as mães nem sempre têm. 

Juntas para construir

O mais irônico é que, embora haja todas essas dificuldades, dados mostram que startups que possuem pessoas do sexo feminino em seu quadro societário tendem a ter resultados 25% melhores.

Ana Calçado conta que hoje em dia ela consegue perceber que há um conjunto de características e competências que a fortalecem no papel de liderança. Entre eles, Ana destaca a capacidade de trabalhar de forma cooperativa com um time de feras que reúnem diversas outras competências indispensáveis para o sucesso da nossa missão. 

“Ter a oportunidade de estar diversas vezes falando para grandes públicos me fez enxergar o quanto outras meninas e mulheres passam a pensar que essa também é uma possibilidade para elas. Diversas vezes sou abordada com olhares surpresos, admirados, questionadores e sonhadores”, conta. 

Confira como mulheres chegaram a cargos de liderança nesse gráfico AAA Inovação

Acesse a matéria completa aqui

Maria Queiroz, Senior Business Analyst do Nubank já vivenciou desafiadoras situações devido aos estereótipos de gênero. Em entrevista à revista Mulheres na Ciência, do British Council, Maria contou que quando entra em uma sala com 10 pessoas, e só você é mulher, nota-se uma estrutura de poder ali. Mulher lésbica, que não performa feminilidade, Maria contou a revista que ela é basicamente o contrário dos executivos da tecnologia que são, em sua maioria, homens mais velhos, brancos, heterossexuais e de classe média. Com isso, ela teve de aprender a ter confiança em si para lidar com isso. 

Acesse a entrevista completa aqui!

Mas se engana quem pensa que só o ecossistema de inovação e tecnologia é assim! O mercado corporativo tradicional e as próprias bancadas de laboratórios pelo mundo operam por meio de lógicas estruturais marcadas pela desigualdade de gênero. 

Mulheres no poder

Há saída para isso tudo? Sim, mas ela não será feita de  um dia para o outro. 

Acontece que toda essa desigualdade é estrutural e estruturante, ou seja, ao mesmo tempo em que ela é construída pela sociedade, a sociedade é construída por ela, sendo, inclusive, reafirmada culturalmente e institucionalmente. 

Dessa forma, precisamos desenvolver soluções que tenham uma visão holística para que todos os atores do ecossistema se mobilizem e tornem o solo fértil para o crescimento de meninas e mulheres na inovação. A boa notícia é que temos visto transformações!

Por exemplo, a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) criou o projeto Desafio do Empreendedorismo do Legado Acadêmico (DELA). O projeto visou promover a formação empreendedora de mulheres bolsistas de mestrado e doutorado, as aproximando do universo de empreendedorismo e inovação.

O DELA preparou as bolsistas para interagir com diferentes cenários, seja levando suas pesquisas para o mercado ou liderando ações empreendedoras dentro das universidades. A edição-piloto ocorreu em 2019  em seis cidades mineiras — Belo Horizonte, Juiz de Fora, Lavras, Montes Claros, Uberlândia e Viçosa — e graduou 22 projetos. 

O projeto também desenvolveu um mapeamento de iniciativas que apoiam, fomentam e encorajam mulheres no empreendedorismo tecnológico e social, veja aqui! Você também pode compartilhar a sua iniciativa no mapeamento, clique aqui.

Outra iniciativa que buscou colaborar com o aumento do número de mulheres nas áreas de inovação e empreendedorismo foi o Bootcamp Mulheres na Ciência. Realizado pela Biominas, em 2021, a iniciativa foi concebida visando promover a imersão de mulheres cientistas.

A ideia era proporcionar aos participantes a oportunidade de atuar em projetos reais junto com as melhores empresas da indústria farmacêutica do país. O Bootcamp contou com uma jornada de sete semanas, período em que as cientistas desenvolveram suas habilidades e adquiriram novos aprendizados de forma ágil e acessível.

Essas são algumas políticas de inovação voltadas para fomentar mulheres no mercado de ciência e tecnologia que foram desenvolvidas nos últimos anos. A Wylinka também trabalha com projetos de desenho de inovação e um dos resultados, mais recentes, que foi gerado pensando no público feminino foi desenvolvido no programa Mobiliza.DF – Acelerando Políticas de Inovação no DF no ano passado. 

O Mobiliza.DF é realizado com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) e busca promover a animação e o fortalecimento do ecossistema de inovação do DF. Na primeira rodada os participantes da equipe Mobilizaelas trabalharam em torno da pergunta: ‘como alavancar projetos inovadores liderados por mulheres residentes na Região Administrativa do Gama?’. 

A solução que o grupo encontrou foi conectar essas mulheres, para isso eles estão desenvolvendo uma plataforma digital onde as empreendedoras poderão encontrar cursos, capacitações, mentorias. O objetivo é induzir encontros, fomentar redes e oferecer capacitações. 

Para a validação da solução o time até já fez um evento teste, que resultou em diversas conexões entre as participantes. A ideia é que o Gama seja apenas um piloto e que a solução se estenda para outras localidades do DF e região. Para saber mais sobre o programa e as soluções desenvolvidas acesse aqui.  

Quer saber mais?

  • Leia o artigo escrito pela nossa CEO, Ana Calçado, sobre ser líder e mulher no universo de Ciência e Tecnologia aqui!
  • Ouça o episódio ‘Cientistas e empreendedoras: da bancada para o mercado’ do podcast Women in Science do British Council aqui!
  • Acesse o mindmap ‘Mulheres na Inovação’, produzido pelo Aço Lab, aqui!
  • Siga o She’s Tech (@shes_tech), movimento que visa fortalecer a presença feminina no setor da tecnologia e que promove uma conferência anual. 

Referências 

https://forbes.com.br/forbes-tech/2021/03/ecossistema-de-inovacao-tem-apenas-51-de-startups-fundadas-por-mulheres/

https://www.programaria.org/desigualdade-genero-ecossistema-startups/
https://www.mulhereseinovacao.com.br/quem-somos/

AutoraTuany Alves (jornalista e analista de comunicação pela Wylinka)