Aceleração e Metodologias

Incubadoras e aceleradoras no Brasil: o que mudou nos últimos anos?

16/abril/2024

Neste 2024 fazem 10 anos que estamos produzindo conteúdos específicos na Wylinka sobre incubadoras e aceleradoras no Brasil – um primeiro paper publicado por um dos nossos gestores diferenciando os dois modelos, por exemplo, saiu em 2015, no Congresso Latino-Iberoamericano de Gestão da Tecnologia (clique aqui para ver). Ao longo desses 10 anos, escrevemos uma série de textos apresentando novos modelos, novos processos, mecânicas de diferenciação e complementaridade, e muito mais. Foram textos como o “Universidades: a inovação mora na tradução, debatendo os modelos de Translational Programs, ou como oProof of Concept Centers: um novo mecanismo para o empreendedorismo nas universidades?”, que apresentava o modelo de POOCs, que a gente muito acredita. Agora, após 10 anos, fomos provocados a escrever um novo texto debatendo a nossa leitura das mudanças nos modelos de incubadoras e aceleradoras ao longo do tempo e o que enxergamos para tais formatos para o futuro do Brasil. Bora para o texto?

Incubadoras – o que mudou?

Pela nossa leitura, as incubadoras sofreram com uma série de pressões da evolução do mercado de tecnologia. Em primeiro lugar, o diferencial das incubadoras sempre foi a infraestrutura física e laboratorial, dado que comumente eram inseridas dentro de universidades, para apoiar empreendedores de alta tecnologia no desenvolvimento de suas soluções (muitas vezes intensivas no uso de bancada). Com a migração dos interesses de empreendedores e investidores para o contexto digital, esse diferencial acabou perdendo força e muitas incubadoras precisaram se ajustar. Em segundo lugar, por motivos diversos, percebemos que as incubadoras perderam seu apoio público – sofrendo com extrema escassez de recursos, especialmente humanos, para apoiar empresas nascentes. Terceiro, a emergência de novos atores, como as aceleradoras e venture builders, trouxe competição pela a atenção de grandes empresas apoiadoras, financiadores, programas governamentais, entre outros. Em contrapartida, o novo movimento de apoio às Deep Techs, especialmente com o crescimento do interesse em soluções de alta tecnologia para o contexto de agro, saúde e materiais, tem trazido oxigenação para os mecanismos de incubação.

Aceleradoras – o que mudou?

O começo da década de 2010 foi marcado por um boom das aceleradoras – especialmente alavancado pelo programa Startup Brasil (2013-2015), que injetou bastante recurso financeiro em startups apoiadas por aceleradoras nacionais. Como é natural após todo o boom, também tivemos um “esfriamento” do modelo por uma série de motivos – na nossa opinião, listamos três.

Primeiro, com a intensificação na queda de juros, muitos investidores entraram nesse espaço de apoio financeiro e suporte gerencial – aumentando a competição pelas melhores startups a investir. Segundo, o modelo original envolvia aportes financeiros com grandes capturas de participação na empresa (acima de 10-15% muitas vezes), o que passou a se tornar um impeditivo para fundos de VC institucionais que queriam investir em rodadas futuras. Terceiro, e um pouco consequente dos dois primeiros, o modelo passou a ser visto como um mecanismo de seleção adversa, ou seja, passavam pelas aceleradoras as startups que não conseguiram investidores ou que tinham pouca maturidade gerencial a ponto de precisar ceder equity para melhorar seus modelos de negócio.

Com isso, grande parte das aceleradoras acabou não oferecendo os melhores retornos nem trazendo grandes casos de exit para o mercado. Em um padrão global, muitas das aceleradoras acabaram, assim, se tornando consultorias de inovação para grandes empresas buscando atuar no relacionamento com startups. Poucas sobreviveram, sendo estas as que acertaram em (i) branding (famosas por selecionarem bons founders e, assim, atraindo mais bons founders, como a Y Combinator), (ii) relação de apoio vs equity saudável (como a Antler) ou (iii) boa integração com grandes empresas, permitindo modelos mais orientados a contratação e M&A (como a Plug & Play e seu modelo de “Tech Center”).

E qual a próxima fronteira?

Antes de responder, reforçamos aqui que esta resposta volta-se muito para o contexto de Deep Techs, espaço em que temos mais atuado como Wylinka. Para os modelos menos intensivos em tecnologia, acreditamos que as estruturas de apoio das melhores aceleradoras (citadas acima) + investidores anjo + VC tem funcionado bem. Desta forma, a resposta aqui vai para, especialmente, a turma das incubadoras, NITs e outros ambientes de inovação que estão procurando se reinventar. Destacamos os seguintes pontos:

1. Atenção aos eventos de liquidez

A literatura acadêmica tem trazido um grande olhar para como atrair mais investidores para o contexto do empreendedorismo de base científica. Isto porque uma Deep Tech requer um volume alto de recursos para tirar as tecnologias do papel, e isso raramente consegue ser suprido por endividamento, financiamento público ou outras vias. Consequentemente, para atrair investidores, precisamos apresentar onde o dinheiro retornaria, ou os eventos de liquidez. Nos EUA e Europa, tem-se uma atividade comum de Deep Techs sendo listadas na bolsa mesmo antes de se provarem, mas no Brasil isso não ocorre – sobrando apenas as atividades de fusão e aquisição por parte das grandes empresas.

Desta forma, uma atenção a esse espaço é fundamental, especialmente em um contexto nacional em que tem-se pouca atividade de P&D privado capaz de incentivar movimentos de M&A. O que mais sugerimos são ações como: (i) programas de desenho e apoio a modelos de negócio que contemplem grandes corporações interessadas em licenciamento ou aquisição futura no Brasil; (ii) programas de integração de corporações com as Deep Techs, buscando um repensar nos projetos de P&D, inovação aberta, entre outros; (iii) programas orientados a internacionalização, visando a penetração em mercados mais abertos, como EUA e Europa.

2. Capacitação e conexão de cientistas

A transição de cientista para empreendedor nunca é trivial – embora características fundamentais, como resiliência, pensamento analítico e criatividade, sejam presentes nas duas esferas. Porém, outros aspectos como competências comerciais (empreendedores vendem a empresa não só para clientes, mas para futuros funcionários, parceiros e investidores), capacidade de lidar com risco (ex: se dedicar 100% ao negócio) e cultura de execução (ex: comunicação contínua e entrega pragmática) são menos comuns nos espaços acadêmicos, e estes precisam ser bem trabalhados.

Quando não presentes, também destacamos mecanismos de conexão, como o Church’s Lab, de Harvard. Conectar gestores com cientistas pode ser um desafio, pois são culturas bastante diferentes. Apesar disso, modelos que tentam aproximar, executar alguns desafios juntos (sem formar uma sociedade logo de cara) e ir buscando o melhor match entre founders pode funcionar bem. Um bom exemplo de co-founder matching program é o da Y Combinator.

3. Aceleradoras de transferência de tecnologia (SATTs)

Este é um modelo que acreditamos muito e que defendemos a replicação no Brasil. Partindo da premissa que muitos cientistas têm incentivos e interesses mais alinhados à permanência na academia, modelos orientados à transferência podem vir a ser muito saudáveis para tirar a pesquisa das universidades e transformar em impacto na sociedade.

Aqui podem existir uma série de estratégias, tais como (i) o desenho de programas de avaliação e direcionamento de propriedade intelectual nas universidades e institutos de pesquisa, como já fizemos com a Fiocruz (ii) programas de identificação de demandas em corporações para incentivo à pesquisa conjunta nas universidades, como via projetos Embrapii e (iii) modelos orientados à aceleração de tecnologias e transferência para startups já em trajetória de sucesso, como o caso dos SATTs, da França. Sobre os SATTs, temos muito interesse de implementar algo similar no Brasil, visto o impacto que já mapeamos de tal modelo lá na França: 755 startups criadas, quase 4.000 patentes prioritárias depositadas, cerca de 1.700 contratos de licenciamento assinados e 1.5 bilhão de euros levantados pelas startups. Detalhamos melhor neste texto aqui.

E aí, bora fazer?

Neste texto fizemos uma grande análise de tudo que aconteceu nos últimos 10 anos no espaço das aceleradoras e incubadoras do Brasil. Como em todo bom ecossistema, entendemos que tudo amadurece e modelos podem ser repensados. Os três possíveis horizontes de fortalecimento são vias que acreditamos profundamente para geração de impacto no contexto de Deep Techs para o país, e adoraríamos que outras instituições sonhassem esse sonho junto com a gente. Caso tenha interesse de executar algo em conjunto, é só entrar em contato com a Anna Bolivar (anna.bolivar@wylinka.org.br). Também não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Linkedin e Instagram, Because when you rock, #wyrock!

Autor: Artur Vilas Boas – Pesquisador na USP em empreendedorismo e inovação (Linkedin)

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