Potência Amazônica

Potência Amazônica: Empresa engarrafa o ar da Amazônia

05/agosto/2022

Palavras-chave: Amazônia, Desenvolvimento Consciente, Ar

Único e exclusivo: como vimos no mais recente texto da série Potência Amazônica, essas são as características que atribuem ao caviar um status de prestígio e um valor alto no mercado. Porém, nem só de ovas de peixe vive o empreendimento de luxo e uma empresa amazônida tem se destacado no setor de águas finas. 

Fundada por Cal Junior, a Ô Amazon Air Water é uma empresa brasileira que transforma a umidade do ar da Amazônia, mais especificamente da cidade de Barcelos, em água engarrafada. Com capacidade para fazer até cinco mil litros por dia, a empresa possui captadores para trazer e condensar a umidade do ar em reservatórios. A água passa diretamente do estado gasoso para líquido de forma sustentável. 

Segundo Vilmara Moraes, Diretora de Projetos Institucionais e Sociais da Ô Amazon, a empresa não vende produtos, mas desperta o desejo de tê-los. Natural da cidade de Barcelos, a diretora faz parte de um seleto grupo que integra e mantém a empresa. Ela contou para a gente como a Ô produz suas safras de água, como a ciência está envolvida nesse processo e como o grupo busca promover a valorização da floresta em pé e da comunidade produzindo águas caras. Então, pegue seu copo de água e bora lá!

Ciclos da vida

Vilmara cresceu e estudou em Barcelos, município do interior do Amazonas cercado por rios e conhecido por seus peixes ornamentais. A amazônida sempre desejou ir além do seu contexto e ajudar as pessoas. Porém, ela precisou adiar seus planos devido à sua primeira gravidez.

O sonho ficou adormecido até 2004, quando sua vida sofreu uma guinada. Vilmara conseguiu se libertar de um relacionamento abusivo, onde vivia violência doméstica, e pôde se ouvir e se entender mais, criando autoconfiança. Ela, então, resgatou seu desejo de adolescência e conseguiu, enfim, se mudar junto com seus quatro filhos para Manaus, onde voltou a estudar e se formou em Administração. 

Foi na capital também que a ligação de Vilmara com a Ô Amazon começou a criar raízes. Em seu último ano de faculdade, a amazônida e seus colegas de turma foram incentivados a apresentar produtos inovadores que tinham ligação com a sustentabilidade. Vilmara lembrou-se da empresa que engarrafava água do ar no seu município e pensou que seria perfeito apresentá-la. “Vou falar de um produto da minha cidade e trazer visibilidade para ela”, lembra.

A apresentação do produto parou a instituição, com direito a presença do reitor da faculdade, além de solidificar a relação da administradora com o fundador da Ô Amazon, Cal Junior. Anos mais tarde o empresário convidou Vilmara para integrar a equipe da empresa. “Eu tenho muita gratidão de ter conhecido a Ô e poder fazer parte dela levando a minha cidade e o selo Amazônia para o mundo”, conta. 

Engarrafando o ar da Amazônia

Tirar água do ar de uma cidade cercada por rios e florestas! A inovação realmente chama a atenção e pode parecer coisa de ficção científica, mas é pura ciência. “Podemos comparar com o ar condicionado que pega umidade, devolve a água e fica com o ar. Nós fazemos o inverso”, explica Vilmara Moraes. 

O processo não é novo e o fundador da empresa, Cal Junior, teve acesso a ela na China, país onde máquinas que captam a umidade do ar são comuns. Contudo, após estudos e pesquisas, aqui no Brasil, a empresa conseguiu desenvolver uma tecnologia própria que  foi patenteada pela empresa. 

A primeira safra de água produzida pela Ô Amazon foi feita em 2019. ‘Colhida’ pela manhã (horário em que a onça sai para caçar) a edição leva o nome de Onça Pintada. Tudo é feito e engarrafado em Barcelos e exportado para fora do país e outras regiões do Brasil. 

“Consecutivamente (2020/2021) tivemos a pandemia, o que tornou complicado a exportação, mas não paramos de trabalhar. Agora, estamos voltando e a perspectiva é de um ganho em torno de 80 milhões de reais  daqui a três meses”, informa. 

Do ar para a mesa

A água ainda não está sendo comercializada, mas já acumula fãs que a aguardam ansiosamente nas cidades de Londres, França, Austrália, Texas e Nova York. O produto também já detém prêmios importantes nesse seleto grupo de águas finas, inclusive sendo certificado pela Fine Water Society. Para se ter uma ideia, em 2021 a água recebeu a medalha de ouro na categoria das águas exóticas da instituição.  

Divulgação Ô Amazon

Quem são esses compradores? Vilmara Moraes conta que é um público pulverizado e a água, que custa por volta de 80 euros, foi pensada para ser apreciada em restaurantes e grandes hotéis, assim como em eventos de degustação, pois ajuda a limpar e a apurar o paladar. “Ela deixa sua boca pronta para degustar outros vinhos”, comenta. 

Porém, entrar nesse seleto grupo não foi uma tarefa fácil. Segundo a diretora, desafios específicos a esse mercado se juntaram aos desafios comuns a todos os empreendedores da Amazônia. “Chegamos batendo na porta e ter a marca Amazônia nos ajudou muito, pois despertou a curiosidade das pessoas. O que fez com que fossemos inseridos nesse mercado de uma forma mais rápida do que imaginamos”, conta. 

Desenvolvimento consciente

Para além do encantamento que a Ô Amazon desperta, a empresa também tem uma preocupação com o desenvolvimento consciente na região. Vilmara conta que durante as gerações foi se formando um entendimento de que a floresta é inesgotável. “Caiu uma árvore, nasce outra. Tínhamos essa crença de que tudo se resolve sozinho, porém não é bem assim. Precisamos criar uma consciência de que a floresta pode acabar sim”, destaca. 

Segundo a diretora, a Ô Amazon quer mostrar que é possível ter esse entendimento e empreender os produtos da Amazônia. “Quando desenvolvemos empresas a partir de um desenvolvimento consciente o resultado é mais favorável à floresta e queremos ser esse exemplo, para que as empresas busquem sustentabilidade e desenvolvam processos que não agridam a natureza”, comenta. 

Vilmara Moraes conta que esse desenvolvimento também passa pela escolha dos parceiros das empresas. “Nós, por exemplo, buscamos parceiros e fornecedores que tenham a mesma visão que a nossa, que  caminhem como a gente”, destaca. 

Um desses parceiros é a Universidade do Estado do Amazonas (UEA). A instituição busca capacitar a população e empreendedores a empreender de forma consciente. “Um dos nossos gargalos na Amazônia, para empreender, é a falta de capacitação. Temos pessoas com projetos pequenos que não sabem o que fazer, como lidar com o seu negócio”, conta.

Para a amazônida, a capacitação ajuda tanto a preparar essas pessoas, quanto a melhorar a comunicação no município. Segundo Vilmara, há muitos problemas com a internet e com conexão telefônica na cidade, mas as empresas não sentem essa demanda. “As capacitações podem ser o passo inicial para desenvolver respostas a esses problemas, enquanto a tão sonhada fibra ótica não chega. Empreender na Amazônia não é fácil, mas é possível!”, destaca.

Amazônia Inclusiva 

Lugar riquíssimo de possibilidades diversas, essa é a forma como Vilmara vê a Amazônia. Porém, a diretora ressalta que é preciso entender quais são as demandas locais. “Possibilidades são inúmeras, mas precisamos entender as reais necessidades e quais os impactos. Fazer um estudo sobre essas demandas é fundamental”, informa. 

“Conservação e preservação são palavras complexas, mas quando dizemos cuidar do que é nosso é mais compreensivo e dentro da nossa realidade”, comenta Vilmara.

Para isso é preciso entender que cuidar da Amazônia não é apenas cuidar das árvores, mas da sua população. “Por exemplo, eu tenho um projeto chamado Embaixadoras da Selva. Com todos os problemas que passei, entendi que as mulheres na minha cidade precisam se descobrir, se olhar e entender quão talentosas são e o quanto podem contribuir com a nossa região”, conta. 

Quer conhecer mais os talentos e histórias da Amazônia? Fique ligado na Deep, a série Potência Amazônica continua e traz mais histórias de empreendedorismo e liderança na região! 


Autora: Tuany Alves (jornalista e analista de comunicação pela Wylinka)

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