Investimentos e ESG: passado, presente e futuro das finanças sustentáveis
Quem acompanhou a COP30 viu uma importante pauta do momento: o papel do ESG (responsabilidade ambiental, social e de governança) no contexto dos investimentos – inclusive com a B3 reconhecendo empresas líderes em seus índices. (Spoiler: essa inclusive é uma importante pauta para nós, da Wylinka, mas exploraremos isso mais a fundo ao final deste texto). E embora a ideia de ESG como fator de investimento seja algo em alta nos dias atuais, este é um tema cujo debate tem raízes há mais de um século, mas pouca gente sabe. Um fato curioso trazido pelo pessoal do International Institute for Industrial Environmental Economics, por exemplo, é o fenômeno das “sin stocks” nos anos 1920s – as famosas ações amaldiçoadas, ligadas a empresas de álcool e tabaco que eram evitadas por alguns investidores. O cuidado com o impacto por parte de investidores, portanto, não é algo tão recente assim – e foi por isso que pensamos neste texto aqui na Deep: mostrar como nós, da Wylinka, enxergamos o passado, o presente e o futuro das finanças ESG. Isso posto, vamos para mais uma leitura?
Passado – das “sin stocks” ao Bloomberg ESG: 100 anos de ESG investing
Dos anos 20 para os anos 30, evoluiu o pensamento humanista, a psicologia industrial e o efeito comportamental nas escolas de administração. Estes, inspirados pelo emergente pensamento marxista da época e pela doutrina social da igreja católica, traziam novos debates sobre justiça social nas empresas. É assim que, dos anos 30 aos 60, muito se avançou no entendimento e no debate sobre o papel social das firmas – passando por famosos discursos presidenciais americanos, como a fala de Wendel Wilkie sobre a necessidade de se educar homens de negócios quanto a um novo sentido de responsabilidade social, ou argumentos contrários por nobelistas, como o de Milton Friedman em 1962 sobre “a única responsabilidade social de uma firma ser o dar lucro”.
Apesar dos debates e visões conflitantes, os anos 60 e 70 trouxeram avanços no entendimento do assunto, como com o estudo “The problem of Social Cost” (Coase, 1960) destacando as externalidades negativas de complexos industriais (ex: poluição gerada por fábricas). Este é tratado como um período no qual temas como Corporate Social Responsibility (CSR) e ESG passam a ser disseminados, e a sociedade começa a discutir temas como problemas de pobreza, discriminação, consumismo, conservação ambiental e stakeholders. No artigo seminal de Carroll (1979), por exemplo, o autor desmembra o elemento “social issues” em uma série de subtemas, como “consumerism”, “environment”, “discrimination”, “product safety”, “occupational safety” e “shareholders”.
Já nos anos 80, encontramos o tema mais amadurecido, e em 1983 temos um grande marco para a visão de ESG como fator de investimento: um estudo de Mintzberg em respostas às visões contrárias ao ESG (como Drucker e Friedman). Neste estudo, Mintzberg apresentava as primeiras evidências de associação positiva entre CSR e lucratividade de empresas no ramo alimentício – e o finalizava convidando mais estudos que reforçassem tais efeitos positivos. Para Mintzberg, pensadores em CSR deveriam produzir evidências de forma a combater três discursos que, à época, tratava como os pilares do ataque ao tema:
- CSR é somente exercício de marketing e não melhora concretamente a competitividade;
- Gestores sabem gerir negócios, não causas sociais;
- A competitividade do sistema capitalista não dá margem para compromissos sociais.
Foi neste estudo também que Mintzberg (1983) reforçou um argumento originalmente proposto por Bouman (1973) – a ideia de uma “nova mão invisível do mercado”, capaz de regular e promover ações responsáveis por parte das empresas. Mas é nos anos 90 e começo dos anos 2000 que o debate avança para comoções de maior escala e a pauta se fortalece entre legisladores e conselhos empresariais. Desta época, destacam-se três grandes eventos:
- Em 1996, a famosa matéria da Life Magazine sobre o trabalho análogo à escravidão de crianças em fábricas da Nike no Vietnã;
- Em 1995, o prêmio Nobel de Química sobre a degradação da camada de ozônio, seguido do Protocolo de Kyoto em 1997;
- O escândalo da fraude fiscal da Enron, em 2001, e as consequentes regulações em governança corporativa.
E foi assim que, nesses quase 100 anos de história, investidores passam a entender a “nova mão invisível”, demandando maior atenção aos temas de ESG devido a impactos como perda de reputação da marca, perda de parceiros estratégicos, custos litigiosos e limitação de acesso a recursos humanos e financeiros. O tema passa a, desta forma, ganhar bem maior evidência na sociedade, seja pelo termo ESG sendo cunhado e disseminado por Kofi Annan, em Assembleia da ONU, e pela emergência das grandes bases de dados e rankings ESG, como Bloomberg ESG, KLD (atual MSCI) e ASET4 (atual Refinitiv ESG).
Presente – a sofisticação do debate
Com o conceito estabelecido, boas práticas pelo mundo e bases de dados bem organizadas, a literatura sobre ESG e investimentos se sofisticam. Como apresenta Gillan et al. (2021), uma série de trabalhos sobre ESG surgiram na última década avaliando a relação entre performance em ESG, performance financeira e outras variáveis. Na literatura recente, ESG como fator de investimento pode ser encontrado sob a ótica de diversos temas, tais como: características setoriais, cultura local, remuneração de executivos, internacionalização dos conselhos, diversidade do C-level, estrutura societária da empresa, grau de institucionalização de investidores, precificação de risco do ativo, custo de capital, entre outros. Independentemente da ótica adotada, um dos mais comuns pontos de vista da literatura atual está no retorno sobre o investimento em ESG. Como apontam Gillan e colegas, boa parte das evidências para este retorno na literatura voltam-se a dois grandes pontos:
(i) Enriquecimento operacional: seja por melhoria do fluxo de caixa, seja porque clientes preferem empresas mais responsáveis e funcionários preferem trabalhar em empresas assim, seja por menor custo de capital (trazido por melhores percepções de empresas responsáveis);
(ii) Valorização do ativo: empresas com certificações ESG são percebidas com um prêmio maior.
Cabe o destaque para o fato de que a associação positiva não é consenso. Kruger & Doellietern (2015) em sua famosa crítica ao ESG investing, por exemplo, argumentam sobre a necessidade de maior sofisticação nos modelos para segregar os efeitos de práticas ESG na performance das empresas. O fato de diversas empresas terem adotado ESG por obrigação ou por questões de marketing (greenwashing) nos últimos anos, por exemplo, trazia problemas de endogenia nos modelos quantitativos (ESG endogeneity).Por fim, sob a ótica empresarial podemos encontrar debates recentes em finanças corporativas e ESG, especialmente no espaço de gestão de riscos e precificação de ativos. Aqui temos argumentos ligados à vantagem em securitização de práticas ESG (“insurance advantage”) e o papel do ESG no “amortecimento” de outros riscos, como em diversificação e hedging (de la Fuente et al., 2025). Já no aspecto do risco, discussões baseadas em modelos de precificação, como o CAPM, apontam para o ESG como via para redução do risco sistemático, via a diferenciação em produtos que usualmente se traduz em menor elasticidade de preço por parte da demanda e maior resiliência em casos de crise (Albuquerque et al. 2020). Em debates mais avançados, como em Avramov et al. (2022), também vemos a discussão sobre incerteza em ESG e os impactos em preço e demanda de ações, evidenciando associações negativas entre a incerteza e tanto alfa quanto o beta na precificação de ativos.
Futuro – muito além das empresas listadas
E para fechar esse texto gostaríamos de destacar uma nova pauta para esse espaço de financiamento ESG: o blended finance, que traz a atenção ESG para empresas que ainda não estão listadas na bolsa e que podem se beneficiar em outro estágio da jornada de financiamento – a fase inicial, de alto risco. Como já falamos neste outro texto, o Blended Finance é uma abordagem estruturante que permite que organizações com objetivos diferentes invistam lado a lado e, ao mesmo tempo, alcancem suas próprias metas, sejam eles retorno financeiro, impacto social ou uma combinação de ambos. Para isso, ele mobiliza capital comercial originalmente investido em projetos com perfil tradicional para a estruturação financeira de operações que atendam aos ODS. Por meio dele, fontes alternativas de capital – o que chamamos de capital catalítico (filantropia ou de fomento) – atuam como forma de mitigar o risco dos projetos e atrair investimento comercial (público e/ou privado), facilitando que empresas mais frágeis atravessem o vale da morte da inovação (que pode ser social, ambiental ou tecnológica).
E assim fechamos este ensaio – convidando organizações a repensarem conosco a maneira de investir com impacto, seja em mercados públicos ou privados. Se você quiser se envolver conosco , é só entrar em contato com nosso comercial, (comercial@wylinka.org.br). Também não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Linkedin e Instagram.
Artigos recomendados:
– Business diversification and ESG engagement: Riding tandem to risk reduction and value creation? (2025)
– Resiliency of Environmental and Social Stocks: An Analysis of the Exogenous COVID-19 Market Crash (2020)
– Sustainable investing with ESG rating uncertainty (2022)