Deep Techs e Startups

Foodtech: para onde vai o mercado com o maior número de usuários do mundo?

31/janeiro/2021

Foodtech: para onde vai o mercado com o maior número de usuários do mundo?

Alimentação, um mercado com 7,8 bilhões de clientes, representando cerca de 10% do PIB mundial, mas ainda assim um mercado com enormes ineficiências. Quando tem-se um mercado tão grande com tanta ineficiência você pode apostar: startups vão surgir. E foi isso que aconteceu na última década: em 2008, o funding global no mercado de alimentação foi de singelos US$60MM, ao passo que em 2015 já saltava para US$1 bilhão. Em 2018, a iFood sozinha captou US$500MM, e o mercado bateu US$17 bilhões. Os valores só aumentam. Com todo esse movimento, o que podemos esperar de transformações concretas para a cadeia de alimentação? Alguns movimentos já estão acontecendo, e, nesse post, separamos algumas tendências que acreditamos relevantes para o presente e futuro do mercado.

Quando a Wylinka foi uma das selecionadas pela Fundação Cargill para repensar o futuro da alimentação, sabíamos que o desafio seria grande. O mercado é grande e complexo, muitas vezes dependendo de ciência de fronteira. Mas como ciência de fronteira materializada em startups é a nossa praia, as coisas ficavam mais fáceis de organizar. Daí criamos o Circuito StartupTech: Desafios da Alimentação.

Photo by Pineapple Supply Co. on Unsplash

Antes de falar das tendências em específico, é importante entender o cenário dos desafios desse mercado. Hoje, com o amadurecimento do mercado e maior conscientização dos consumidores, temos a demanda por alimentação mais saudável. Geralmente, alimentação mais saudável demanda responsividade da cadeia. Há ainda a pressão por sustentabilidade, demandando menor impacto ambiental, uso de fontes proteicas alternativas e outros. Por fim, temos também a contínua busca por alimentação mais acessível, com custos reduzidos, o que, geralmente, demanda economias de escala (grandes produções, verticalização ou ampla distribuição).

Essas forças, muitas vezes opostas, demandam dos atores envolvidos muita criatividade, e geralmente fazem emergir segmentações de mercado que abraçam públicos distintos. Em um estudo do CBInsights, por exemplo, os autores apresentam como as duas demandas “conveniência” e “tempo de consumo” geram diferentes mercados que estão sendo explorados por diversos players, como o mercado de substituição de alimentos por pílulas, o mercado de “chef on demand” e o mercado de entrega de orgânicos. Abaixo, uma organização visual desse arranjo:

Para nós, da Wylinka, 3 grandes tendências poderão ser exploradas por startups que desejam navegar pelo universo da alimentação: (i) descentralização e pulverização; (ii) saúde e consciência; (iii) eficiência operacional. Embora as três tendências possam parecer triviais, existem pontos bastante específicos, e novos, em cada uma delas. Para isso, vamos ao detalhamento!

Descentralização e pulverização

A primeira tendência versa sobre o efeito de novas tecnologias para a descentralização de produções (com melhor comunicação e poder de integração, produtores locais podem chegar aos seus mercados de maneira eficiente e lucrativa, por exemplo) e sua consequência em um maior número de pequenas empresas ou estabelecimentos sendo pulverizados geograficamente.

Aqui, vemos a emergência de hortas populares e comércios locais ganhando poder de distribuição. Um exemplo marcante disso é a startup Favo, que utiliza uma rede de revendedores para distribuir produtos em bairros e condomínios no Brasil, captando R$35MM agora em Janeiro. Temos também as startups que estão se beneficiando de ganhos logísticos e de informação para garantir modelos de rápido crescimento no Brasil, como é o caso da Liv-up, que entrega alimentos frescos e saudáveis por meio de compra/assinatura online, ou a TheCoffe, uma cafeteria compacta baseada em autoatendimento que recentemente captou R$28MM com a Monashees para ser a microcafeteria do futuro.

Na linha do The Coffe, temos o conceito de “low touch economy” chegando forte na alimentação. Lojas autônomas, vending machines e outras soluções vem com bastante força após os saltos de logística que tivemos com novas startups e melhorias de infraestrutura. Na China, tem-se até uma startup atacando um modelo veicular, a BingoBox, cuja loja autônoma se movimenta por regiões conforme horário de pico de modo a atender mais clientes com fome. Nos EUA, a Farmer’s Fridge, uma vending machine de produtos saudáveis, tem se espalhado pelo país, entrando nas famosas Dunkin’e agora mirando até mesmo em aeroportos. Segundo especialistas, esse mercado de “unmanned convenience shop” deve explodir nos próximos 5 anos.

Saúde e consciência

Mais alavancada pela mudança de hábitos por parte dos consumidores, a busca por soluções mais saudáveis em alimentação considera não somente a saúde do indivíduo, mas também a saúde da sociedade como um todo (refletindo-se na busca por uma cadeia de alimentação com menor impacto socioambiental, por exemplo).

Na parte de saúde individual, temos a busca por alimentos saudáveis, com características nutricionais mais ricas e balanceadas, e isso reflete no aumento de soluções em áreas como restaurantes mais saudáveis, startups de entrega de comidas saudáveis (e até produtos para preparo de comidas saudáveis) e produtos rápidos, como snacks, melhores para o organismo. Mas há também uma nova fronteira chamada de “human biome”: soluções que iniciam-se na análise do organismo das pessoas (diagnósticos e testes genéticos, por exemplo) para, a partir disso, oferecer uma dieta individualizada ou soluções específicas para problemas. A americana Viome, por exemplo, já captou mais de US$70MM para uma solução de suplementos “custom-made” baseados em análises individualizadas.

Minimizando o impacto da cadeia, um dos principais movimentos é o de plant-based meat, que anulam o impacto da pecuária ao desenvolver carnes com sabor e propriedades nutricionais similares, mas baseadas em planta. Apesar disso, carnes alternativas podem ser criadas não somente de plantas, mas também em cultivo de celulas, e por isso atualmente usa-se o termo “sustainable proteins”. As plant-based meats dominaram o mercado de fast foods por meio das gigantes Beyond Meat e Impossible Burguer, um sinal de que a tendência vem forte para os próximos anos. A consciência não tem se limitado somente ao impacto da pecuária. Já temos inclusive apostas nesse sentido para o mercado de ovos, como é o caso da gigante produtora Mantiqueira. Há um consenso no mercado de que todos são responsáveis por efeitos nocivos em qualquer ponto da cadeia, com diversas empresas mudando suas práticas em diversas frentes. Na Ambev, um exemplo de atenção aos impactos gerados pela empresa foi a criação de uma diretoria de saúde mental, liderada por uma mulher, a Mariana Holanda.

Eficiência operacional

Por fim, as tecnologias trazem maior capacidade de eficiência operacional para o mercado, e há muita gente transformando isso em novos negócios ou em lucros para negócios já estabelecidos. Enquanto os mercados que citamos acima podem ser encaixados no chamado “consumer food tech”, aqui encontram-se apostas mais ligadas ao cenário de “industrial food tech”.

O primeiro ponto a abordar nessa vertical é o dado de desperdício de comida “pre-consumer”. Alguns estudos mostramque o desperdício de comida antes de chegar ao cliente final pode bater a casa de 40% da produção, o que faz com que startups enderecem tal desafio, como é o caso da Apeel (uma camada de proteção/conserva comestível e sem sabor) e da Hazel (uma espécie de “saquinho de silica” para conservar mais os produtos armazenados). Acreditamos que startups que venham a atacar esse mercado encontrarão bastante abertura por parte de produtores, afinal, 40% é muito dinheiro.

Além do desperdício, há um foco em produtividade. Isso pode ocorrer no melhor cuidado das áreas produtoras, como fazem startups utilizando visão computacional com AI no campo, como a brasileira Cromai, ou também em empresas endereçando produção em escala, como é o caso das fazendas verticais. Em uma cidade japonesa focada bastante em ciência e inovação, a Keihanna Science City, por exemplo, podemos encontrar a Spread, que produz dezenas de milhares de unidades de verduras e legumes por dia de maneira super eficiente utilizando fazendas verticais. Hidroponia, fazendas verticais, visão computacional e automação são as grandes apostas nesse mercado!

Por fim, mais próximo do consumidor final, temos uma tendência que conecta os avanços logísticos do modelo delivery com um movimento de otimização de cadeia: as dark kitchens. Com um boom maior em 2019–2020, o modelo de Dark Kitchen se caracteriza pela existência de uma cozinha central sem restaurante físico, orientando-se somente à distribuição delivery, com muitas vezes mais de um “restaurante fantasma” plugado em sua cozinha. Com isso, as dark kitchens ganham em escala e redução de custos.

Agora é a sua vez!

Acreditamos que o Brasil pode ser referência mundial em inovação no mercado de alimentação. A possibilidade de virar uma potencia nessa vertical pode ser transformadora para nossa economia, e sabemos que isso só vai vir com saltos tecnológicos e grande apoio a startups. Nesse texto, esperamos ter apresentado bons horizontes de exploração para empreendedores e empreendedoras que tenham o desejo de atacar esse mercado. Também temos apoiado diversas startups focadas no futuro da alimentação junto à Fundação Cargill, e talvez a sua região pode ser a próxima a ter um programa local! Não deixe de nos seguir no Facebook e no Instagram para ficar sabendo de novidades.

Além disso, caso tenha interesse de apoiar universidades ou empresas de tecnologia de fronteira, não deixe de nos procurar! Já atuamos em projetos diversos nessa linha — indo desde a valoração de patentes na Fiocruz até o desenho de programas de startups universitárias junto a empresas. Caso tenha interesse, mande um email para a gente no ([email protected]) que a gente cria junto! =)

Leituras complementares para aprofundamento:

Autor: Artur Vilas Boas