Aceleração e Metodologias

O modelo de inovação da Carolina do Norte que criou um ecossistema frutífero

27/janeiro/2022

Sem o solo, nutrientes, água e sol, a semente não germina. Da mesma forma, uma ideia boa não prospera quando só, sem um ecossistema que favoreça a inovação, com o apoio e colaboração de agentes (universidades, empresas tecnológicas, governo, aceleradoras, capital/fundos de investimento) que facilitam a viabilidade de ideias e tecnologias.

Aqui na Wylinka, no início de cada programa de capacitação organizado e executado, exploramos o Ecossistema de Inovação das regiões e setores em foco e demonstramos sua importância, principalmente, para a criação de negócios de base tecnológica. Além disso, nos textos da Deep exploramos alguns modelos responsáveis pelo sucesso de diversas startups de base tecnológica, como: o do Massachusetts Institute of Technology, o da Universidade da Caliórnia, e o da Israel Innovation Authority.

Nessa leitura, exploraremos o primeiro parque científico do mundo, o Parque do Triângulo de Pesquisa (PTP) – se preferir Research Triangle Park (RTP) – que tem gerado diversas spin-offs e atraído grandes empresas, como a Google, a Pfizer, a Biogen, a IQVIA e muitas outras. Quer saber como ele funciona, o porquê dele ter ganho destaque, quais seus desafios, e como é possível fazê-lo no Brasil? Pegue um café e bora lá! =)

Ecossistema do Triângulo

Criado em 1951, e situado no estado da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, o parque PTP é fruto do modelo de inovação denominado “tripla hélice” – no qual a interação entre o estado, as indústrias e empresas, e as universidades compõem os tijolos da construção da competitividade regional e do desenvolvimento econômico. Mais importante ainda, o Triângulo é caracterizado por uma cultura de inovação que estimula o fluxo de conhecimento e sua transferência entre as esferas acadêmicas e empresariais, além de possuir serviços e facilities que promovem a incubação de spin-offs. Mas vamos aos detalhes!

Os vértices do triângulo são ocupadas por 3 universidades com grande ênfase tecnológica: a North Carolina State University, na cidade de Raleigh; a Duke University, na cidade de Durham; e a University of North Carolina at Chapel Hill, na cidade de Chapell Hill. Além disso, a região ocupa o quarto lugar em concentração de doutores e doutoras (os PhDs) do País.

Ao redor das universidades, concentram-se grandes empresas maduras e indústrias globais dos mais diversos setores: tecnologia da informação (como a Lenovo, Google), manufatura (como a General Electric), farmacêutica e biotecnologia (como a Biogen, United Therapeutics, LabCorp, BASF, Novo Nordisk, e Pfizer) entre outras áreas, as quais servem como pontos de apoio, de colaboração e associações, além de possibilitarem horizontes de carreira para acadêmicos(as). Além disso, instituições de pesquisa orientadas ao mercado, como a IBM Global Research Center e o National Institute of Environmental Health Sciences, geram atração e manutenção dos talentos no parque, o que por sua vez, atrai interesse de outras instituições e empresas.

Como elementos determinantes para a criação de startups de base tecnológica, o triângulo conta com (mais de 10) incubadoras e aceleradoras de startups, com enfoques em diversas áreas – além de oferecerem oportunidades específicas para minorias – que se instalam em 13 pontos diferentes dentro do parque. A própria fundação criou uma das incubadoras, o Centro de Pesquisa do Parque (ou, Park Research Center), a qual, além de ser experiente e com uma operação madura, disponibiliza sua infraestrutura para as demais, a fim de extrair o melhor das ideias tecnológicas e torná-las inovações com grande impacto. Desde sua criação, 371 startups nasceram e cresceram no parque: desde equipamentos médicos (como a 410 Medical, que captou mais de US$20MM recentemente) a beveragetech (como a Mosi, que tem uma tecnologia incrível de infusão para chás).

Tá bom, mas o que esse ecossistema de inovação tem de especial?

De caráter agrícola, e sem histórico industrial e demandas externas, o governo estadual construiu um plano para a criação de empregos e para o aumento da renda – um grande parque de alta tecnologia. O governo foi essencial para a implementação da iniciativa coordenando e dando suporte territorial e na obtenção de recursos financeiros.

Entretanto, o governo estabeleceu uma fundação (Research Triangle Foundation – RTF) privada e sem fins lucrativos, composta por agentes terceiros e desvinculados do âmbito público e institucional, e entregou a administração e operação do parque a ela, que se responsabiliza por todas as decisões e estratégias referentes ao parque.

Para atrair empresas de tecnologia e manufatura, a fundação disponibiliza o panorama dos talentos e áreas acadêmicas nas instituições, além de realizar programas associados a empresas nacionais, o que foi um grande marco para a ascensão do MIT no pré-guerra, como encontra-se no livro MIT and the Rise of Entrepreneurial Science. Dessa forma, a fundação aluga, ou vende, um pedaço de território aos interessados em fazer parte do parque, assim eles passam a pagar os impostos ao parque – e somente ao parque.

O objetivo disso é a utilização dos recursos captados para investimentos e melhorias do próprio parque. Para expandir a popularidade do negócio, a fundação realiza colaborações com universidades estrangeiras, outros institutos de pesquisa e parques científicos e tecnológicos.

Com um ecossistema permissivo, os frutos chegam! Veja alguns deles:

Como replicar o Modelo de inovação?

Quando escaneamos esse modelo, nos perguntamos quais são os fatores de sucesso, a fim de nortear as diretrizes nos diversos atores e setores pertencentes ao ecossistema que temos no Brasil. Para isso, resumimos alguns dos fatores aqui:

  • O apoio do governo, embora arriscado e muitas vezes controverso, é um pré-requisito necessário para o desenvolvimento do parque, já que demanda grandes infraestruturas e recursos.
  • O comitê de gestão, personalizado na fundação, deve prover os serviços básicos do parque, além de operá-lo e e abrir caminho para estratégias que andem em direção ao desenvolvimento de novas tecnologias.
  • A presença de força motriz constante de geração de inovação dentro do parque, a qual é conjuntamente impulsionada pelas pesquisas desenvolvidas nas universidades e pelo atrativo urbano cujo crescimento e qualidade de vida são ativos férteis e poderosos.
  • A presença de diversificação dos tipos de indústrias no parque, o que permite uma exploração dos diferentes focos de desenvolvimento.
  • O parque deve atrair a instalação de grandes empresas para alavancar o seu potencial de crescimento.
  • Ele deve criar e atrair incubadoras, a fim de apoiar projetos de soluções tecnológicas, tanto com capacitação quanto com oferecimento de infraestrutura (como espaços laboratoriais, de prototipagem, de teste, etc.).
  • O parque deve atrair fundos de investimento, ainda mais quando se trata de soluções de base tecnológica, que demandam grandes recursos.
  • Talvez o fator mais importante, ao se tratar de desenvolvimento de soluções de base tecnológica, é a presença de talentos no cluster de pesquisa. Isso porque o potencial de sucesso de uma inovação tecnológica está muito ligado ao grau de experiência científica dos seus ideadores.
  • Por fim, e essencial para criação de soluções inovadoras: a presença de cultura, ambientes e espaços que permitam o intercâmbio de informações, ideias e discussões de diferentes atores e esferas de dentro do parque. Além disso, o oferecimento de espaços (laboratórios, oficinas, etc.) de baixo custo e integrados permite a manutenção e crescimento de startups dentro do cluster.

Porém, tão importante quanto conhecer os fatores de sucesso, conhecer os desafios auxiliam a antecipar e contornar possíveis entraves e elementos limitadores. Assim, eis aqui alguns dos desafios já vivenciados pelo parque:

  • Obter competitividade capaz de atrair grandes empresas, assim como talentos;
  • Melhorar a taxa de conversão comercial da ciência e tecnologias;
  • Melhorar a industrialização dos avanços e conquistas em P&D;
  • O envelhecimento dos equipamentos e instalações de hardware do parque;
  • Melhorar a qualidade de vida dos talentos.

E o cenário no Brasil?

Por aqui, algumas das universidades que já iniciaram a construção de um ecossistema mais permissivo e positivo à atração de grandes empresas e à criação e viabilidade de startups são: a Universidade de São Paulo, contando com a recente inauguração do Instituto Pasteur, no Centro de Pesquisa e Inovação Inova USP; a Samsung Ocean na Escola Politécnica; o espaço de Coworking Santander; a presença de incubadoras privadas, como o CIETEC e a Distrito; e públicas, como o InovaHC (com o qual finalizamos a segunda edição do programa de apoio à inovação interna de pesquisadores(as) e colaboradores(as) do HCFMUSP para criação de soluções de grande impacto – o In.cube) e diversos grupos de empreendedorismo (como o NEU).

Em campinas, também temos a Unicamp, a qual possui instalações de empresas de P&D como a Samsung e a IBM, além de eventos, grupos de empreendedorismo, aceleradoras e mais. Há ainda muito a se fazer para melhorar a taxa de desenvolvimento de inovações a partir de invenções tecnológicas e uma coisa é certa: o papel do ecossistema é essencial nesse processo.

Desde a criação da Wylinka, fomentar o ecossistema de inovação em universidades está em nosso sangue! Por aqui, já executamos diversos programas de apoio à inovação de base tecnológica, como o CatalisaSBQ AceleraIn.cube, e muitos outros, impactando pesquisadores e pesquisadoras de todo o Brasil, e estamos lançando o programa Atômica: Aceleração para Startups Científicas, junto ao Sebrae-SP.

Se você gosta de tecnologia e inovação, não deixe de nos seguir nas redes sociais — Instagram e Linkedin — para ver as novidades! Aqui na Wylinka não só acompanhamos tecnologias de fronteira como auxiliamos pesquisadores e inventores a transformar tudo isso em negócios e impacto para o Brasil, então talvez algum de nossos programas funcione para você.

E se quiser inscrever a sua startup em nosso programa Atômica, clique aqui! As inscrições vão até o dia 31 de janeiro.

Autor: Artur Vilas Boas – Pesquisador na USP em empreendedorismo e inovação (Linkedin)

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