Comportamento Empreendedor

Procrastinação, síndrome do impostor etc.: como superar os desafios emocionais em uma startup?

01/março/2020

Procrastinação, síndrome do impostor etc.: como superar os desafios emocionais em uma startup?

Em 2016, ficou famosa a história da startup Zenefits, uma HR-Tech (empresa de tecnologia que busca solucionar problemas de RH) que levantou 580 milhões de dólares e sucumbiu em problemas emocionais no processo de escalar sua operação. Histórias como a da Zenefits não são tão incomuns — com exceção dos valores na captação — e essa realidade já se materializa em frases famosas no mundo dos negócios, tais como:

  • “Empreendedores de primeira viagem acham que a competição é o que mata 99% das startups. 99% das startups morre por suicídio, não assassinato.” (Y Combinator)
  • “Uma realidade para o tênis, para o empreendedorismo e para qualquer outra aventura humana: ‘o oponente que mora na sua cabeça é bem mais poderoso que aquele que está do outro lado da rede'”. (Steve Schlafman, investidor americano, citando uma frase de Tim Gallwey)

Como esse é um tema bastante importante, e também é um tema no qual já tocamos em diversos outros posts, resolvemos apresentar aqui um compilado de desafios emocionais que surgem na trajetória de uma startup. Esse compilado vem da nossa experiência atuando com elas há cerca de 7 anos na Wylinka (operando o programa SEED-MG, rodando diversos programas de aceleração e dando suporte a startups mais maduras em projetos junto ao SEBRAE, por exemplo).

Síndrome do Impostor

Bem comum em ambientes de intensidade intelectual (como universidades e empresas de tecnologia), a síndrome do impostor é uma sensação de, ao olhar para os lados, sentir-se muito inferiorizado. Nessa sensação, as pessoas começam a achar que estão enganando seus pares (“ninguém percebeu que eu não sei nada disso. Eu sou uma fraude e vão me descobrir!”).

O que geralmente ocorre na síndrome do impostor é um fenômeno famoso da psicologia: enxergamos a maioria dos nossos defeitos e dificuldades, enquanto enxergamos muito pouco dos que nos cercam. Essa “comparação assimétrica” é a causa de grandes problemas — da síndrome do impostor nascem estados depressivos, doenças psicossomáticas, problemas de ansiedade, todos estes levando a resultados piores do que em estado normal.

Ênfase para mulheres em ambientes de tecnologia: devido a inúmeras construções sociais, o sentimento de não pertencimento no cenário de tecnologia é mais forte em mulheres, o que acarreta em uma amplificação dessa sensação. A consequência final disso é a criação de ambientes hostis a mulheres, impedindo-as de aplicar para vagas, dedicar-se a estudos e assumir posições de liderança no ambiente empresarial.

Como melhorar isso? Investir em rodas de conversa para as pessoas falarem sobre suas inseguranças; construir grupos mais íntimos, que ofereçam segurança psicológica para as pessoas dialogarem; desenvolver uma cultura de abertura às vulnerabilidades; comunicar e promover ações voltadas para a disseminação do assunto. O importante é que as pessoas possam olhar para os lados e não se sentirem sozinhas, tendo espaços para conversar e ventilar suas inseguranças.

Procrastinação

A procrastinação é o ato de deixar as coisas para depois, o que geralmente desencadeia em entregas abaixo do esperado, falta de alinhamento entre times de engenharia e situações de estresse no último minuto. Como já escrevemos em diversos outros posts, a procrastinação é um mecanismo de fuga. Fugimos de tarefas que parecem ser maiores que nós, como uma defesa para o sentimento de inferioridade que surge ao encararmos tais desafios.

Em startups, a procrastinação pode se dar de maneira muito mais elegante: fundadores, por exemplo, podem deixar de lado atividades importantes justificando que estavam resolvendo outras tarefas, que tudo está uma correria etc. Como a lista de coisas a serem feitas é sempre grande, é mais fácil pegar muitas tarefas simples, sem qualquer priorização, e demonstrar para o mundo que se está “trabalhando demais”. CEOs que “trabalham até tarde”, mas passam o dia fazendo pequenas tarefas, usando redes sociais, conversando com potenciais clientes/parceiros sem muito foco, têm se tornado um problema comum em startups, e essa é uma forma sofisticada de procrastinar também.

Como melhorar isso? Investir em mecanismos de organização e priorização de tarefas já é um grande passo (to-do lists, kanban, scrum e afins). Além disso, como já recomendamos em outros posts, cuidar do emocional é fundamental. Startups são difíceis e é muito fácil naufragar no sentimento de inferioridade mascarado por multitask e um discurso workaholic.

Escalada de tensão

A escalada de tensão é análoga a um telefone sem fio: ruídos de comunicação que vão ficando maiores a cada transmissão da mensagem (e adição de novas mensagens), degringolando em crises de cultura ou explosões individuais desnecessárias.

Uma primeira via é o desespero com novas informações. O concorrente fecha um contrato grande, ou a startup perde projetos/pessoas relevantes, e o burburinho perde o controle por não haver maturidade emocional no lidar com informações difíceis. Em escritórios de startups, geralmente abertos e pequenos, esse tipo de situação às vezes foge mais ao controle com diversas pessoas ouvindo os diálogos e reverberando a mensagem (sempre adicionando uma nova dose de desespero). Como empreender é uma montanha-russa emocional, se o time não souber lidar com expectativas, quebras de expectativas, problemas e atos de ceder, muito provavelmente o ambiente se tornará estressante e repleto de crises desnecessárias.

Uma segunda via é a projeção de tensões pessoais. Pessoas sempre terão desconfortos pessoais, porém, devido à nossa falta de alfabetização emocional, raramente entendemos o que está acontecendo para aquele desconforto existir e projetamos em colegas/chefes, no ambiente ou em decisões gerais. Essa projeção geralmente encontra companhia pelos corredores — outras pessoas em situações similares que começam a reforçar as projeções individuais. No fim do dia, as tensões escalam e pressionam por mudanças organizacionais, que muitas vezes acontecem para responder aos anseios. Elas ocorrem, mas o desconforto permanece e uma nova projeção é criada. Caos instaurado.

Como melhorar isso? A realização de one-on-one’s ajuda muito as pessoas no ato de ventilar tensões. O investimento em programas de alfabetização emocional, bem como melhores estratégias de comunicação organizacional, colaboram para evitar crises. Líderes capazes de acalmar ânimos e preparar seus times para lidar com o desconforto fazem-se cada vez mais necessários, e, por isso, é um tema que deve ser prioritário na alta gestão.

Efeito Pigmaleão e Narcisismo

Um outro problema de ambientes altamente intelectualizados é o narcisismo. Como escreveu Caetano Veloso, “Narciso acha feio o que não é espelho“. Muitas pessoas superaram traumas/inseguranças de infância reconstruindo uma imagem de si, ou ancorando em algum talento específico, e, ao serem expostas a um mundo complexo e diverso, acabam se fechando na não aceitação do que é diferente. É o famoso “se não pensa como eu, não é correto/admirável” criador de culturas altamente homogêneas (engenheiros homens brancos, por exemplo) que só reforçam a visão narcisista. Quando adicionados elementos diversos no time, estes são excluídos ou inferiorizados.

E aí entra o Efeito Pigmaleão: as expectativas de uma pessoa em relação a outra ditam o resultado final (ex: professores que esperam que alunos fracassem terão mais alunos fracassando). Quando o Narcisismo se mistura com o Efeito Pigmaleão, tais pessoas cheias de si constroem uma leitura negativa dos diferentes, e essa pressão gera insegurança, falta de mentoria/direcionamento e, naturalmente, tem como consequência resultados ruins (que os Narcisistas abraçam com um tom de “eu não avisei que era ruim?“). Esse fenômeno é super comum em startups, cujos times fundadores geralmente vêm de espaços intelectualizados, homogeneizados e carregados de inseguranças. O resultado geralmente são lideranças pouco respeitadas, distanciamento do time, ambientes tóxicos, assédio moral, baixa diversidade e perda de talentos.

Como melhorar isso? Realizar frequentemente rodadas de feedbacks (anonimizados, idealmente com muitos envolvidos) para que os dados evidenciem a realidade aos narcisistas. Além disso, times de RH atentos a tais problemas podem ter conversas mais profundas com tais figuras, que só irão mudar de comportamento com ajuda profissional ou crises pessoais mais graves.

Comunicação Violenta

Ambientes estressantes e, novamente, má alfabetização emocional geram o fenômeno da Comunicação Violenta, um padrão no qual as pessoas não conseguem se comunicar de maneira tranquila, se apegando à violência como estratégia para alcançar os objetivos da mensagem. A comunicação violenta, como defende Marshall Rosenberg em seu excelente livro “Comunicação Não-Violenta”, nasce de uma visão polarizada de mundo (eu estou certo, o outro errado), e essa polarização leva à tentativa de controle (eu preciso mudar o comportamento do outro). O desalinho emocional da tentativa de controle somado à falta de empatia se materializa em violência verbal. O maior problema da comunicação violenta é que, além das mágoas que causa, ela não é efetiva. As pessoas acabam se ressentindo, ficando desanimadas e não absorvendo o feedback.

É importante reforçar que comunicação violenta não é necessariamente o uso de palavrões, mas sim comunicar-se com julgamento (“você nunca faz isso direito”; “você está sendo ignorante”). Muitas vezes, ela é não-verbal, se materializando em uma cara feia, em uma torção de nariz, em um distanciamento — e tudo isso passa uma mensagem de “você é XYZ e eu não gosto disso”. E vai além: muitas vezes ela não é sobre falar/demonstrar, mas sobre ouvir. Ouvimos violentamente quando absorvemos uma mensagem em uma visão de “nós versus eles”, quando nos fechamos e reforçamos uma visão polarizada nas relações.

E como melhorar? Rosenberg defende que a atenção à violência já ajuda a sermos menos combativos. Para ele, também podemos fazer esforços concretos, como, em vez de falarmos “você é muito irresponsável”, concentramos nas ações concretas dizendo “nas últimas três tarefas, você deixou de entregar ABC, e isso me incomodou pois a expectativa era outra”. Com fatos objetivos, o feedback é menos ambíguo e julgador. Além disso, a exposição a outras pessoas violentas ajuda a perceber o quão destrutiva é uma comunicação violenta (um péssimo remédio, mas às vezes o único funcional). Rodadas de feedback também ajudam a levantar essa bandeira para pessoas que se comunicam violentamente.

Conclusão

Startups não são fáceis e lidar com pessoas em ambiente de alta velocidade é sempre estressante. Saber cuidar do emocional, e se atentar aos padrões destrutivos do nosso emocional, é um passo importante para evitar a “morte pelo suicídio” que tantas empresas de tecnologia vivenciaram nos últimos anos. Empreender é correr uma maratona, e não uma sprint — e, por isso, o emocional é tão importante. Ele garante que os times tenham resiliência para se manter executando de maneira consistente e coesa, ajudando a construir culturas saudáveis e atraentes para os talentos que estão porvir.

Se você atua com suporte a startups e programas de desenvolvimento de novos negócios, não deixe de nos procurar! Nós temos feito muitos projetos de aceleração e desenvolvimento de novos negócios, e é sempre bom encontrar novos parceiros para potenciais projetos. Alguns cases nossos você encontra clicando aqui. Caso tenha interesse em nos contratar para a execução de algum projeto, é só mandar um email para a Sara Aquino (sara.aquino@wylinka.org.br), do nosso comercial, que ela faz a mágica dela. 🙂

Outros textos aqui da DEEP sobre Inteligência Emocional:

Esperamos que tenham gostado! Se gostou, não deixe de divulgar, pois nos ajuda muito. Because when you rock, #wyrock.

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